Cartas Marcadas é uma newsletter semanal que investiga a ascensão da extrema direita, as ameaças à democracia e os bastidores do poder em Brasília
Cartas Marcadas: Parte 41
Desde a publicação da primeira reportagem da
série Vaza
Flávio, um dos esforços de aliados do senador Flávio Bolsonaro, do PL do
Rio de Janeiro, tem sido convencer o público de que as revelações não se
sustentam. Uma das vozes na tentativa de deslegitimar o nosso trabalho tem sido
a do comentarista Paulo Figueiredo.
“Começaram com o Intercept dizendo que eram 134 milhões do
Vorcaro pro filme. Caiu para 61 milhões no Metrópoles. Depois, 2 milhões no
Globo. Já já vocês vão descobrir que NÃO TEM dinheiro do Vorcaro no
filme”, escreveu o
aliado da família Bolsonaro no X, em 13 de maio.
A tese de discrepância nos valores ganhou
força a partir de postagens falsas compartilhadas por parlamentares e
páginas bolsonaristas, alegando que o Intercept teria recuado das informações,
“pedido desculpas” ou admitido não possuir provas de que Daniel Vorcaro
financiou o filme “Dark Horse”, a cinebiografia de Jair Bolsonaro. Isso já
foi amplamente
refutado.
A alegação é mentirosa por vários motivos, mas o mais
importante deles é que a primeira
reportagem da nossa série sempre distinguiu dois números importantes
para entender a negociata: os 24 milhões de dólares (R$ 134 milhões, em valores
convertidos pela cotação da época) negociados por Flávio Bolsonaro com Vorcaro
para financiar o filme; e os 10,6 milhões de dólares (equivalentes, naquele
período, a R$ 61 milhões) efetivamente pagos.
Uma semana depois, em 20 de maio, Figueiredo questionou se o trabalho do
Intercept revelaria, de fato, “transações financeiras”. E acrescentou: “Se não
vierem (como Flávio jura e como eu acredito, até o momento), a credibilidade
voltará aos poucos”. Pois bem: a edição desta semana da newsletter Cartas
Marcadas traz documentos inéditos que comprovam de maneira irrefutável que
houve repasses financeiros.
Planilha detalha fluxo de pagamentos
Além de mensagens, o Intercept teve acesso a planilhas,
contratos, comprovantes bancários e registros financeiros que permitem
reconstruir parte do caminho percorrido pelo dinheiro para bancar “Dark Horse”.
O primeiro documento é uma planilha intitulada “Funding
Schedule”, apresentada nas conversas como o cronograma de financiamento do
projeto. O arquivo registra uma operação de quase 24 milhões de dólares — o
equivalente a R$ 134 milhões na cotação da época — e detalha tanto os aportes
previstos quanto os valores efetivamente recebidos pelo fundo ligado à
produção.
O cronograma previa 14 desembolsos entre janeiro de 2025 e
janeiro de 2026. As duas primeiras parcelas foram de 2 milhões de dólares cada,
inicialmente previstas para 20 e 25 de janeiro de 2025, mas efetivamente pagas
em 13 de fevereiro e em 24 de março, segundo a planilha.
As outras 12 foram fixadas em 1,66 milhão de dólares cada –
a primeira delas também foi paga em 24 de março, outras duas em 25 de abril e
mais uma em 29 de maio. Ao final do cronograma, o total recebido indica uma
soma de 10,6 milhões de dólares.
Essa tabela sobre os pagamentos foi encaminhada em 7 de
agosto de 2025 pelo empresário Thiago Miranda a Daniel Vorcaro, dono do Banco
Master, acompanhada da observação: “Duas em atraso e está para vencer a
terceira agora em agosto”. Miranda recebeu uma resposta curta de Vorcaro:
“Segunda fazemos duas”.
A mensagem é relevante porque sugere que novos desembolsos
estavam sendo discutidos naquele momento, o que pode significar que o valor
efetivamente pago tenha ultrapassado os 10,6 milhões de dólares.
Um cronograma semelhante havia sido encaminhado pelo próprio
Daniel Vorcaro ao pastor Fabiano Zettel, cunhado e operador financeiro do
banqueiro, meses antes, em 12 de março de 2025. Segundo mensagens obtidas pelo
Intercept, Vorcaro enviou o documento e deu duas orientações: “precisa me ajudar
controlae isso” e “tem que pagar a segunda e a terceira”.
Zettel respondeu logo em seguida: “Vou pra cima do Mineiro.
Passei o fluxo pra ele. Achei que ele tava fazendo”. O “Mineiro” citado na
troca de mensagens seria Antônio Carlos Freixo Júnior, executivo ligado à Entre
Investimentos e Participações, empresa que fez a transferência bancária.
Apesar das negativas oficiais, as mensagens indicam haver
uma conexão entre Vorcaro e Freixo. Em fevereiro de 2025, segundo registros
obtidos pelo Intercept, Zettel perguntou a Vorcaro se poderia “pedir pro Minas”
logo após o banqueiro sugerir fazer a operação “via entre”. O telefone de
Freixo foi salvo na agenda de contatos de Vorcaro como Mineiro.
Comprovante bancário detalha operação
Outro documento que chama atenção é o comprovante da
primeira transferência internacional da operação, emitido pelo sistema SWIFT,
utilizado por instituições financeiras para operações entre diferentes
países.
O registro é datado de 13 de fevereiro de 2025 e confirma a
remessa de 2 milhões de dólares ao Havengate Development Fund LP, controlado
por Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro.
Segundo o comprovante, a operação teve como remetente a
Entre Investimentos e Participações Ltda. O pagamento foi processado por meio
do Banco BS2 e destinado a uma conta do Havengate vinculada ao JPMorgan Chase
Bank. O comprovante contém os códigos de identificação da transferência, os
dados das instituições envolvidas, as referências da operação e os registros de
liquidação exigidos pelo sistema financeiro internacional.
O extrato registra o que seria a primeira transferência
internacional para financiar “Dark Horse” e demonstra o funcionamento na
prática da operação descrita nas mensagens.
Esse comprovante, inclusive, consta em uma série de
mensagens trocadas entre Zettel e Vorcaro sobre dificuldades para concluir a
operação. Em 5 de fevereiro, Zettel informou ao banqueiro que o câmbio do Banco
Master estava criando obstáculos para a transferência destinada ao filme.
Durante a conversa, os dois discutiram alternativas para
viabilizar o envio dos recursos ao exterior e acabaram decidindo recorrer à
estrutura da Entre Investimentos e Participações Ltda, empresa que aparece como
remetente no comprovante de transferência bancária.
Embora a Entre Investimentos e Participações e Vorcaro
neguem qualquer vínculo societário, de controle ou governança entre as partes,
documentos obtidos pelo Intercept e reportagens publicadas por Metrópoles e Estadão sobre
investigações em curso indicam haver uma uma conexão operacional e financeira
entre o grupo e o banqueiro.
Menos de dez dias depois, em 14 de fevereiro, Zettel
encaminhou a Vorcaro o comprovante emitido pela rede SWIFT acompanhado de uma
única palavra: “Filme!”. A mensagem foi enviada um dia após a liquidação da
operação de 2 milhões de dólares destinada ao Havengate Development Fund LP,
exatamente a transferência cuja realização vinha sendo discutida nas conversas
anteriores.
Outro lado
O Intercept entrou em contato com Paulo Calixto, Thiago
Miranda e Antônio Carlos Freixo Júnior. Também procuramos as defesas de
Fabiano Zettel e Daniel Vorcaro, que estão presos. Não houve resposta até a
publicação desta reportagem. O espaço segue aberto.
O Grupo Entre, em nota, informou que “realiza suas operações
em conformidade com as normas e regulamentações aplicáveis ao setor
financeiro”. Também disse que a empresa tem “compromisso com a integridade, a
transparência e o cumprimento” da lei e está “à disposição das autoridades
competentes sempre que necessário”.
Os documentos revelados nesta edição estão longe de encerrar
a história. Pelo contrário. Eles ajudam a responder algumas das perguntas
levantadas desde a publicação da primeira reportagem da série Vaza Flávio, mas
também abrem novas frentes de investigação sobre a origem dos recursos, o papel
desempenhado por cada personagem envolvido na operação e o destino final de
parte do dinheiro movimentado.
A equipe do Intercept segue investigando e cruzando
informações com documentos públicos, registros empresariais e novas fontes.
Esse trabalho já permitiu localizar documentos inéditos que não faziam parte
das primeiras reportagens e que lançam nova luz sobre as relações financeiras,
empresariais e políticas reveladas pelo caso.
Como sempre, a apuração também depende da colaboração de
leitores, fontes e denunciantes. Se você possui documentos, mensagens,
contratos, gravações, planilhas ou qualquer informação relevante relacionada a
esta investigação — ou a qualquer outro tema de interesse público —, entre em
contato com o Intercept por meio dos canais disponíveis em nosso site. Todas as
orientações para envio seguro de informações estão disponíveis aqui.
Até semana que vem!
Desde que o Intercept revelou as negociações entre Flávio
Bolsonaro e Daniel Vorcaro para financiar o filme Dark Horse, aliados do
bolsonarismo passaram a afirmar que não existiam provas das transações
financeiras. Documentos obtidos por nossa equipe desmentem essa versão e ajudam
a reconstruir o caminho percorrido pelo dinheiro.
Segue o fio para mais detalhes
Desde que o Intercept revelou as negociações entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro para financiar o filme Dark Horse, aliados do bolsonarismo passaram a afirmar que não existiam provas das transações financeiras. Documentos obtidos por nossa equipe desmentem essa versão e… pic.twitter.com/3BVdS5zHJM
— Intercept Brasil (@TheInterceptBr) June 9, 2026
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Por: Paulo Motoryn, Eduardo Goulart, Leandro Becker e Mauricio Moraes
Fonte: Intercept Brasil
TVT News
Novos documentos divulgados pelo portal The Intercept Brasil trouxeram mais detalhes sobre a investigação que envolve o financiamento do filme Dark Horse, produção cinematográfica sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Os registros detalham as negociações entre o banqueiro Daniel Vorcaro e o senador Flávio Bolsonaro \(PL-RJ\).
De acordo com o material publicado, o acordo previa o repasse total de até US$ 24 milhões para a execução da obra. Desse montante, as planilhas apontam que US$ 10 milhões, o equivalente a cerca de R$ 61 milhões, já teriam sido efetivamente transferidos.
O envio desses valores ocorreu de forma fracionada em 14 parcelas ao longo dos anos de 2025 e 2026. A reportagem revelou mensagens de cobrança por atrasos nos repasses trocadas entre Daniel Vorcaro e seu cunhado, o pastor Fabiano Zettel, que atuava como operador financeiro no processo.
Entre as provas documentais obtidas, consta o comprovante de
envio de uma remessa de US$ 2 milhões realizada por meio do sistema bancário
internacional Swift. O destino do dinheiro foi um fundo no exterior controlado
pelo advogado do deputado Eduardo Bolsonaro.






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