Senador esteve no Salão Oval junto com seu irmão, o
ex-deputado Eduardo Bolsonaro, e com Paulo Figueiredo, neto do ditador João
Figueiredo
Opera Mundi
O senador Flávio
Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República, se
encontrou nesta terça-feira (26/05) com o presidente dos Estados Unidos, Donald
Trump, durante visita realizada na Casa Branca, em Washington.
O pré-candidato da extrema direita foi acompanhado pelo seu
irmão, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e pelo jornalista Paulo
Figueiredo, neto do ditador João Figueiredo (1979-1985).
O senador carioca afirmou que, durante a conversa, ele pediu
ao mandatário norte-americano que incluísse as facções Primeiro Comando da
Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) na lista dos Estados Unidos de
organizações consideradas terroristas.
“Pedi enfaticamente ao presidente Trump que designe o quanto antes o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiras”, declarou Flávio, após a visita
A postura difere da adotada pelo governo do presidente Luiz
Inácio Lula da Silva, que considera que a medida poderia justificar uma
possível intervenção militar dos Estados Unidos no Brasil.
Ademais, Flávio defendeu que o Brasil forme parte da
iniciativa Escudo das Américas, na qual estão envolvidos países
latino-americanos com governos de extrema direita, como Argentina, Chile,
Equador e Honduras.
Jair Bolsonaro e pré-candidatura
Segundo Flávio Bolsonaro, Trump perguntou a ele, durante a
conversa, sobre o estado do ex-presidente Jair Bolsonaro (2019-2023), que se
encontra em prisão domiciliar devido a condenação no Supremo Tribunal Federal
por liderar uma tentativa de golpe de Estado, entre dezembro de 2022 e janeiro
de 2023.
O senador classificou a preocupação supostamente demonstrada
pelo presidente norte-americano como um “gesto humano”.
Pré-candidato à Presidência pelo PL, Flávio admitiu que
Trump não declarou apoio à sua postulação ao Palácio do Planalto.
Flávio, Eduardo e Figueiredo aparecem em foto com Trump e
Lindberg ironiza: os três patetas
Lindbergh Farias
TRÊS PATETAS COM TRUMP. Lindbergh Farias, vice líder do
governo Lula, ironiza encontro de Flávio Bolsonaro, Eduardo e Paulo Figueiredo
com Trump. “Três patetas com Trump”, diz o deputado, ao classificar o encontro
como “ridículo”.
Lindbergh disse que a viagem aos EUA para uma “fotinho com
Trump” é uma tentativa do Flávio Bolsonaro de esconder o escândalo dos R$ 61
milhões que ele tomou do Vorcaro.
TRÊS PATETAS COM TRUMP. Lindbergh Farias, vice líder do governo Lula, ironiza encontro de Flávio Bolsonaro, Eduardo e Paulo Figueiredo com Trump. “Três patetas com Trump”, diz o deputado, ao classificar o encontro como “ridículo”.
Cartas Marcadas é uma newsletter semanal que investiga a
ascensão da extrema direita, as ameaças à democracia e os bastidores do poder
em Brasília.
Essa é uma edição especial da newsletter Cartas Marcadas,
assinada por boa parte dos autores da investigação que chacoalhou o Brasil nos
últimos dias. A proposta inicial do mês de maio é que esse espaço seria
dedicado apenas a reportagens sobre a tramitação da escala 6×1.
Fizemos isso nas primeiras duas semanas, nos debruçando
sobre o lobby empresarial que usa a extrema direita para atravancar a proposta.
Mas, no meio do caminho, veio um turbilhão. O Intercept Brasil publicou o
maior furo jornalístico do país desde as revelações da Vaza Jato:
as mensagens secretas que colocam a família Bolsonaro no centro do escândalo do
Banco Master, de Daniel Vorcaro.
É claro que não abriremos mão de nossa cobertura da urgente
luta dos milhões de trabalhadores que suportam o desumano regime 6×1. Mas
faremos uma pausa porque sabemos que a nossa audiência anseia por mais informações
sobre a relação do bolsonarismo com o Banco Master.
Portanto, resolvemos mudar os planos e, nesta semana,
brindar os leitores com mais um capítulo de nossa investigação: o áudio e as
mensagens de texto que revelam a proximidade de mais um líder da extrema
direita no Congresso com Daniel Vorcaro. Vamos aos fatos.
Pouco menos de uma hora após o horário em que estava
previsto um encontro entre o senador Flávio Bolsonaro, do PL do Rio de Janeiro,
e o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, no dia 11 de dezembro de 2024, em
Brasília, o deputado federal Mario Frias, do PL de São Paulo, enviou um áudio
ao banqueiro agradecendo pelo apoio ao filme “Dark Horse”.
Na gravação, obtida com exclusividade pelo Intercept, Frias
afirma que o longa sobre Jair Bolsonaro “vai mexer com o coração de muita
gente”, será “muito importante para o nosso país” e pede autorização para
informar Vorcaro sobre o andamento da produção.
O registro mostra intimidade entre Frias e Vorcaro, algo que
o deputado vem tentando esconder. Na semana passada, após o Interceptrevelar
que o senador Flávio Bolsonaro havia
negociado R$ 134 milhões com Vorcaro para financiar o filme “Dark Horse”,
Frias disse que o banqueiro não
havia dado “um único centavo” para o longa-metragem.
Cerca de 20 horas depois, o deputado emitiu outra nota e
disse que havia “uma
diferença de interpretação sobre a origem formal do investimento”. Ele
destacou apenas que Vorcaro ou o Banco Master não haviam aparecido como
investidores. A postura demonstra um distanciamento entre os dois – uma versão
que um áudio e mensagens obtidas com exclusividade pelo Intercept desmontam.
O conteúdo indica que, além de produtor-executivo de “Dark
Horse”, o ex-secretário especial de Cultura de Jair Bolsonaro atuava
diretamente na articulação do filme financiado pelo banqueiro, que viria a ser
investigado pela maior fraude bancária da história do país.
Na gravação, enviada por WhatsApp para Vorcaro em 11 de
dezembro de 2024, às 18h24, Frias diz: “Só te agradecer, meu irmão. Vamos mexer
com o coração de muita gente e vai ser muito importante para o nosso país, tá?
Preciso de vez em quando te falar como as coisas vão andando, tá?”
Imediatamente depois, Vorcaro responde: “Eu to numa ligação te chamo em
seguida”. Frias diz “Blz” e, às 19h06, os dois se falam por ligação de voz durante
cerca de 2 minutos.
Como já apontamos no início do texto, o agradecimento veio
menos de uma hora após o horário previsto para o encontro entre Flávio
Bolsonaro e Vorcaro, naquele dia, na residência do banqueiro em Brasília.
Segundo mensagens reveladas pelo Intercept, a reunião foi organizada por Thiago
Miranda, fundador e sócio do Portal Leo Dias, para tratar do financiamento do
filme biográfico internacional sobre Jair Bolsonaro.
Flávio Bolsonaro participava de uma reunião da Comissão de
Constituição, Justiça e Cidadania, a CCJ, no Senado naquele dia e deixou a sua
cadeira por volta de 17h30, no horário em que havia sido marcado o encontro. Só
voltou às 18h, o que indica que uma possível participação na reunião teria
ocorrido de forma remota ou em outro local. O Intercept não conseguiu confirmar
se o encontro, de fato, ocorreu.
Na sequência do áudio, Frias mandou novas mensagens ao banqueiro. Em 15 de dezembro de 2024, o deputado enviou uma captura de tela a Vorcaro que exibe uma troca de mensagens entre ele e o diretor Cyrus Nowrasteh, revelando negociações preliminares para a produção de uma obra sobre “um homem comum que se tornou presidente por um milagre”.
No diálogo, o diretor se compromete a conversar com o ator Jim Caviezel sobre o projeto, alertando, contudo, que o astro fará duas perguntas: “1) Posso ler o roteiro? 2) Eles vão me pagar bem?”. Frias respondeu que o ator “será imortalizado por esse papel”.
Abaixo do print, Frias escreveu para Vorcaro:
“Milagres só são possíveis quando a fé”, “Esse é um desses milagres” e “Vai ser
a maior super produção de uma história brasileira”. Aparentemente, na primeira
frase, o parlamentar quis dizer “quando há fé”.
Em 22 de dezembro de 2024, houve outra conversa entre o
deputado e Vorcaro. O banqueiro disse, às 10h19, que estava na igreja e
prometeu chamá-lo quando saísse. Frias não se conteve e, uma hora e 16 minutos
depois, antes mesmo que Vorcaro avisasse que estava disponível, escreveu que o
filme seria “o grande milagre”, capaz de tocar “milhões de pessoas em todo
mundo”, e teria “um papel histórico imprescindível para as futuras gerações”.
Disse ainda que o longa-metragem sobre o ex-presidente era uma “questão de
justiça divina”, ao que Vorcaro respondeu, às 11h40: “Tenho certeza disso”. “JB
precisa ter sua verdadeira história revelada”, acrescentou Mario Frias. Em
outra mensagem, afirmou: “2026 é do Brasil” e depois, frisou: “Deus te abençoe
meu Brother”.
As mensagens mostram que a relação entre Frias e Vorcaro ia além de um contato protocolar entre um potencial investidor e um produtor. O deputado também chamava o banqueiro de “meu irmão”, fazia elogios em tom religioso e demonstrava acompanhar de perto o desenvolvimento da obra.
Frias, que foi produtor-executivo de “Dark Horse” e peça-chave na articulação da obra com o banqueiro investigado pela maior fraude bancária do país, passou a propagar mentiras nas redes sociais, na tentativa de descredibilizar as reportagens do Intercept.
Como revelamos no último sábado, o parlamentar compartilhou, no dia 14 de maio, publicações falsas alegando que o Intercept teria recuado sobre as cifras do filme sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro.
O rastreamento da autoria dos conteúdos compartilhados por Frias expõe uma rede de desinformação financiada e estruturalmente ligada ao PL, partido do deputado. O site diario360, por exemplo, pertence a Fagner Leandro de Lima, secretário parlamentar do também deputado federal André Fernandes, do PL do Ceará e tesoureiro da sigla no estado.
Já a página Hora Brasília é registrada em nome de uma empresa de Hugo Alves dos Santos, aliado próximo do bolsonarista Oswaldo Eustáquio. A firma de comunicação atuou nas eleições de 2024 como fornecedora de duas campanhas do PL, recebendo R$ 55 mil de candidatos a vereador, em Atibaia, no interior de São Paulo. Foi nessa cidade que Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio Bolsonaro, foi preso, em 2020, na casa do advogado da família Bolsonaro, Frederik Wassef, num desdobramento da investigação que apurava o esquema de rachadinhas na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.
Outro lado
Após a publicação da primeira reportagem da série, a defesa de Mario Frias confirmou que o deputado manteve contato com Vorcaro, mas afirmou que as mensagens “refletem apenas uma relação legítima entre idealizador do projeto e um potencial apoiador privado da iniciativa”. Segundo os advogados, Frias não exerceu papel de articulador político ou financeiro em nome do banqueiro.
A defesa acrescentou que o entusiasmo manifestado nas conversas privadas decorria da “dimensão artística e cultural do projeto”. Procuramos Mario Frias nesta terça-feira, 19, por meio de sua assessoria. Não houve resposta até a publicação desta reportagem.
O PL também foi procurado, mas não respondeu. O espaço segue aberto.
A defesa de Daniel Vorcaro foi procurada, mas informou que ele não vai se manifestar.
Vazamento por vazamento, o do trailer do filme "Dark Horse" é o que menos deveria preocupar o "brother" Mario Frias.
“Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia
conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!”, escreveu o
senador Flávio
Bolsonaro, do PL do
Rio de Janeiro, ao dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, em
uma mensagem enviada pelo WhatsApp em 16 de
novembro de 2025
Imagem: Intercept Brasil
Um dia após a mensagem de Flávio, Vorcaro foi preso enquanto
tentava fugir do país por operar um esquema de fraude que gerou um rombo de R$
47 bilhões ao Fundo Garantidor de Crédito, o FGC. No dia seguinte, 18 de
novembro, seu banco foi liquidado pelo Banco Central.
A frase escrita pelo hoje pré-candidato à Presidência da
República é parte de uma série de registros que indicam a existência de uma
negociação em que Vorcaro se comprometeu a repassar um total de 24 milhões de
dólares (na época equivalentes a cerca de R$ 134 milhões) para financiar a
produção de “Dark
Horse”, o filme biográfico sobre Jair Bolsonaro.
Documentos e mensagens obtidos com exclusividade pelo Intercept
Brasil indicam que pelo menos 10,6 milhões de dólares — cerca de R$ 61
milhões, considerando a cotação do dólar nos períodos das transferências —
haviam sido pagos entre fevereiro e maio de 2025, em seis operações, para
financiar o projeto cinematográfico ligado à família Bolsonaro.
Os registros incluem um cronograma de desembolso, um
comprovante bancário e cobranças relacionadas às parcelas previstas para a
produção. Não há evidências nas mensagens de que Vorcaro tenha feito os outros
oito pagamentos previstos para o projeto.
O envolvimento de Vorcaro foi negociado diretamente por
Flávio Bolsonaro, mas teve outros intermediários, como o irmão e deputado
federal cassado Eduardo Bolsonaro,
do PL de São Paulo, e o deputado federal Mario Frias, também do
PL paulista, que foi secretário da Cultura no governo Bolsonaro.
As conversas privadas e os documentos de Vorcaro revelam os
profundos laços financeiros e a estreita relação entre o clã Bolsonaro e o
banqueiro que se tornou o homem mais radioativo de Brasília. Flávio já havia
negado tais conexões, da sua família e da extrema direita, chegando a dizer que
isso era uma “narrativa falsa que o Lula tem criado”.
Quando foi noticiado,
em março deste ano, que o cunhado de Vorcaro – o pastor Fabiano
Zettel – havia feito uma doação de R$ 3 milhões para a campanha
presidencial de Jair Bolsonaro, Flávio disse
à CNN que isso aconteceu “sem nenhuma vinculação, sem nenhuma
contrapartida, sem nenhum contato pessoal, inclusive”.
“Essa conta do Banco Master está longe de chegar perto da
direita”, afirmou o
senador. Em evento da pré-campanha em João Pessoa, na Paraíba, dois dias antes,
ele classificou
o caso como um “grande esquema de roubalheira que está dando nojo a
todo o país”.
Na manhã desta quarta-feira, 13, Flávio Bolsonaro foi
questionado presencialmente pelo Intercept sobre o financiamento de Vorcaro ao
filme e respondeu: “De onde você tirou essa informação? É mentira”. Em seguida,
deu uma gargalhada e se retirou de onde concedia entrevista à imprensa, próximo
ao Supremo Tribunal Federal, o STF – antes, o senador havia se reunido com o
ministro Edson Fachin, presidente da corte.
Flávio já havia sido contatado sobre o assunto – por
telefone, WhatsApp e e-mail, mas não retornou até a publicação da reportagem. A
defesa de Daniel Vorcaro foi acionada, mas não houve resposta. Eduardo
Bolsonaro também não respondeu aos questionamentos enviados pelo Intercept. O
espaço segue aberto e, caso haja resposta, o texto será atualizado.
Em nota enviada ao Intercept após a publicação da
reportagem, a defesa do deputado federal Mario Frias confirmou os contatos
entre o parlamentar e Vorcaro, mas disse que as mensagens “refletem apenas uma
relação legítima entre idealizador do projeto e um potencial apoiador privado
da iniciativa”.
Também destacou que Frias não exerceu papel de articulador
político ou financeiro em nome de Vorcaro. Ainda negou qualquer uso do mandato
parlamentar para “promoção de lobby privado ou favorecimento empresarial”.
O advogado do deputado informou, ainda, que, na época da
troca de mensagens, Vorcaro era conhecido como um empresário do mercado
financeiro e “não havia qualquer informação pública que indicasse eventual
irregularidade financeira” atribuída ao banqueiro. “Conversas privadas
envolvendo exibição de conteúdo audiovisual ou encontros sociais entre pessoas
públicas e empresários não configuram irregularidade”, destacou a defesa do
parlamentar.
Sobre o filme, a defesa pontuou que Frias participou do
desenvolvimento criativo e institucional do projeto audiovisual e que “o
entusiasmo manifestado nas mensagens privadas decorre da dimensão artística e
cultural do projeto, considerado por sua equipe como uma produção inédita
dentro do cinema nacional independente”.
Os diálogos, um comprovante de uma ordem de pagamento de 2
milhões de dólares e uma tabela com previsão de valores a serem pagos
analisados pelo Intercept indicam que pelo menos parte do dinheiro foi
transferida pela Entre Investimentos e Participações, que atuava em parceria
com empresas de Vorcaro, para o fundo Havengate Development Fund LP, sediado no
Texas, nos Estados Unidos, e controlado por aliados de Eduardo Bolsonaro.
Os registros ainda sinalizam a participação direta nas
operações de outros dois intermediários: o empresário Thiago Miranda – fundador
e sócio do Portal Leo Dias –, e Fabiano Zettel, apontado pela Polícia Federal
como o principal operador financeiro de Vorcaro.
As mensagens obtidas pelo Intercept abrangem o período de
dezembro de 2024 a novembro de 2025 e incluem diálogos do banqueiro com
diversos interlocutores. O conteúdo do vazamento foi verificado por meio de
cruzamento de informações contidas nos diálogos com dados públicos e sigilosos.
Entre os elementos que confirmaram a autenticidade do material estão dados
bancários e telefônicos, inquéritos policiais, registros do Congresso Nacional e
de redes sociais.
De acordo com as conversas a que tivemos acesso, o
relacionamento entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro para viabilizar a
produção internacional do filme contava com um intermediário no fim de 2024 e,
no ano seguinte, evoluiu para uma interlocução direta, marcada por cobranças
para a liberação de dinheiro, tratativas operacionais e demonstrações de
proximidade pessoal.
As conversas também indicam que Daniel Vorcaro acompanhava
pessoalmente o andamento dos pagamentos e atribuía prioridade ao filme em relação
a outros compromissos financeiros.
O Intercept entrou em contato por e-mail com advogados do
ex-presidente Jair Bolsonaro, mas não obteve retorno até a publicação desta
reportagem.
‘Flavio está ciente de tudo’
A primeira aproximação registrada pelas conversas obtidas
pelo Intercept ocorreu em 8 de dezembro de 2024, quando o empresário Thiago
Miranda, então CEO do Portal Leo Dias, organizou um encontro entre Flávio
Bolsonaro e Vorcaro em Brasília.
Na mensagem para confirmar o encontro, Miranda afirmou ao
banqueiro que o senador queria tratar do “filme do presidente e do SBT $$” [uma
possível referência ao canal de televisão SBT], acrescentando que “Flavio está
ciente de tudo”.
Thiago Miranda e Leo Dias foram contatados para comentar as
trocas de mensagens. Até a publicação da reportagem, não houve resposta. O
espaço segue aberto e, caso haja retorno, o texto será atualizado.
O SBT, por sua vez, respondeu que, “nunca teve qualquer tipo
de contrato com o Banco Master” e que “o produto CredCesta, vinculado ao Grupo
Master, fez ações comerciais de fevereiro a dezembro de 2024 em programa do
SBT” e que “a relação do SBT com o Banco Master foi a mesma que com todos os
seus anunciantes, com estritamente a comercialização de espaços publicitários”.
A reunião foi marcada, segundo os registros, para 11 de
dezembro, às 17h30, na residência de Vorcaro em Brasília. Naquele dia, Flávio
Bolsonaro participou de uma reunião deliberativa na Comissão de Constituição,
Justiça e Cidadania, a CCJ. O vídeo disponível no canal do Senado no YouTube
mostra que, por volta das 17h30, ele recebe um
telefonema, se levanta e sai da sala.
As imagens mostram Flávio voltando a se sentar na sua
cadeira poucos
minutos depois das 18h, o que sugere que uma possível participação na
reunião poderia ter ocorrido de forma remota ou em outro local.
Pouco menos de uma hora após o horário previsto para o
encontro, às 18h24, as mensagens obtidas pelo Intercept mostram que Mario Frias
enviou um áudio para Vorcaro agradecendo pelo apoio ao projeto. Frias afirmou
que o filme “vai mexer com o coração de muita gente” e seria importante para o
país. Na sequência, ele e o banqueiro fizeram uma ligação telefônica entre si.
Nos meses seguintes, as mensagens indicam avanço das
negociações. No início de 2025, Miranda e Flávio pressionam Vorcaro para
destravar os contratos e iniciar os aportes.
No dia 20 de janeiro, Miranda encaminhou a Vorcaro uma
captura de tela em que um número atribuído a Flávio Bolsonaro pedia que o
jurídico do investidor fosse pressionado para concluir o processo. Horas
depois, Vorcaro respondeu a Miranda, na época CEO do Portal Leo Dias: “Vou
atras aqui”.
As conversas mostram que o cronograma de pagamentos passou a
ser acompanhado diretamente pelo banqueiro e por Fabiano Zettel, apontado nas
mensagens como responsável pela operacionalização jurídica e financeira do
aporte. Entramos em contato com o advogado de Zettel, Celso Vilardi, mas ele
não respondeu aos questionamentos feitos pela reportagem.
No dia 21 de janeiro, Zettel explicou a Vorcaro que o filme
teria um fluxo específico de pagamentos: dez parcelas de 2,5 milhões de
dólares. Meses depois, em agosto do mesmo ano, Miranda enviou a Daniel Vorcaro
um documento com uma tabela indicando que o fluxo de pagamentos acordado foi
diferente: 14 parcelas – 12 delas de 1,666 milhão de dólares e duas de 2
milhões de dólares.
Ainda em janeiro, no dia 28, Vorcaro demonstrou preocupação
com os atrasos nos repasses financeiros e afirmou que o projeto cinematográfico
era prioridade absoluta ao definir o pagamento como “o mais importante
disparado”. E deu uma ordem: “Nao pode falhar mais”.
As mensagens também revelam dificuldades operacionais para a
remessa internacional dos recursos. Em fevereiro, Zettel relatou sucessivas
recusas do setor de câmbio do Banco Master para realizar a operação e que
informações de cadastro eram “meio estranhas”. Vorcaro, então, orientou que o
pagamento fosse realizado “via entre”, uma referência à empresa Entre
Investimentos e Participações.
Embora o Grupo Entre Investimentos e Participações e Vorcaro
neguem qualquer vínculo societário, de controle ou governança entre as partes,
processos judiciais e administrativos obtidos pelo Intercept evidenciam uma
conexão operacional e financeira entre o grupo e o banqueiro. Em março de 2026,
após o Banco Central decretar a liquidação extrajudicial da Entrepay, uma
empresa que pertencia ao Grupo, autoridades passaram a investigar a suspeita de
que Vorcaro atuaria como dono
oculto da empresa.
O Intercept é único…
porque é financiado por seus leitores, e não por banqueiros bilionários,
governos ou políticos.
Mas, infelizmente, menos de 1% dos nossos leitores chega a fazer uma
contribuição.
Estamos em uma campanha para recrutar 1.000 novos apoiadores mensais neste
mês.
Precisamos de você para que possamos continuar produzindo investigações como
esta.
Segundo matérias publicadas por Metrópoles e Estadão,
investigadores avaliam que Antônio Carlos Freixo Júnior — executivo ligado ao
Grupo Entre e identificado nas mensagens do vazamento obtido pelo Intercept
como Mineiro — funcionaria como operador de interesses do banqueiro dentro da
companhia.
Apesar das negativas oficiais, as mensagens indicam haver
uma ligação entre Vorcaro e Freixo. Em fevereiro de 2025, segundo os registros,
Fabiano Zettel perguntou a Vorcaro se poderia “pedir pro Minas” logo após o
banqueiro sugerir fazer a operação “via entre”. O telefone de Freixo foi salvo
na agenda de contatos de Vorcaro como Mineiro.
O Intercept enviou mensagem por WhatsApp e telefonou para
Antônio Carlos Freixo Júnior, mas não obteve retorno até a publicação desta
reportagem.
Dias depois, em 14 de fevereiro de 2025, Zettel encaminhou
ao banqueiro o comprovante de uma transferência internacional de 2 milhões de
dólares para o Havengate Development Fund LP, identificado nas mensagens como o
fundo ligado à produção do filme. A Entre Investimentos e Participações aparece
no registro como a remetente do valor.
O Grupo Entre, controlador da Entre Investimentos e
Participações, foi contatado pela reportagem e disse em nota que “não existe
vínculo societário, de controle ou de governança da empresa com Daniel Vorcaro.
A empresa reafirma seu compromisso com a transparência, permanecendo à
disposição das autoridades para os esclarecimentos necessários”.
Documentos societários obtidos pelo Intercept mostram que o
fundo Havengate Development Fund LP foi registrado no Texas, nos Estados
Unidos, e tem como agente legal o escritório “Law Offices of Paulo Calixto
PLLC”, de Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro.
Nos registros, o fundo aparece como sendo pertencente à
companhia quase homônima Havengate Development Fund GP LLC, registrada no mesmo
endereço comercial em Dallas.
Os documentos desta segunda firma apontam o corretor de
imóveis Altieris Santana como membro do quadro societário do fundo e Paulo
Calixto como membro e administrador. Ambos aparecem vinculados ao mesmo endereço
comercial utilizado pelo Havengate.
Em março de 2025, de acordo com os registros obtidos pelo
Intercept, Vorcaro voltou a cobrar a quitação das parcelas ainda pendentes. Em
uma mensagem enviada no dia 12 daquele mês, ele encaminhou um cronograma de desembolsos
indicando que apenas a primeira parcela havia sido paga até então. O documento
previa seis parcelas somando 10,6 milhões de dólares entre janeiro e maio de
2025.
Em contato telefônico, Altieris Santana se recusou a prestar
informações à reportagem, indicando Paulo Calixto como representante legal.
Paulo Calixto, por sua vez, não respondeu aos contatos telefônicos, por e-mail
e via mensagem feitos pelo Intercept.
Crise do Master atrapalha ‘Dark Horse’
No dia 21 de março, o nome de Eduardo Bolsonaro apareceu
pela primeira vez nas conversas a que tivemos acesso. Thiago Miranda encaminhou
a Vorcaro uma captura de tela em que um número atribuído a Eduardo sugere
alternativas para facilitar o envio dos recursos aos EUA – e informa que
Altieris Santana, controlador do fundo Havengate, estaria disponível para
reuniões presenciais relacionadas à operação financeira.
No contato com a reportagem do Intercept, Altieris Santana
se recusou a comentar a relação com o filho do ex-presidente ou a intermediação
dos pagamentos. O Intercept também questionou por e-mail o ex-deputado Eduardo
Bolsonaro, mas não recebeu resposta até a publicação deste texto.
O cronograma de financiamento do filme coincidiu com a
tentativa fracassada de Vorcaro de vender o Master para o Banco
de Brasília, o BRB, e com a crescente atenção das autoridades, que
culminaria na sua prisão. Ao longo do segundo semestre de 2025, as mensagens
indicam aumento da pressão financeira sobre Vorcaro e uma intensificação do
contato direto com Flávio Bolsonaro.
Em agosto, Miranda enviou ao banqueiro a imagem de uma
tabela intitulada “Funding Schedule Havengate Dev Fund”, segundo a qual 10,6
milhões de dólares já haviam sido transferidos de um total previsto de 23,9
milhões de dólares. Vorcaro respondeu: “segunda fazemos duas”, e Miranda
afirmou estar “monitorando essa reta final”.
A reportagem do Intercept telefonou para Miranda e enviou
questionamentos a ele por WhatsApp, mas não obteve resposta até a publicação
desta reportagem.
Pouco depois, em 8 de setembro, alguns dias antes de Jair
Bolsonaro ser condenado pela trama golpista, Flávio Bolsonaro enviou um áudio
diretamente a Vorcaro cobrando o saldo pendente e alertando para o risco de
paralisação da produção do filme.
Na gravação, o senador diz que havia preocupação com o
atraso nos pagamentos a profissionais internacionais envolvidos na produção.
“Imagina a gente dando calote num Jim Caviezel [ator que interpreta Jair
Bolsonaro no filme], num Cyrus [Nowrasteh, diretor do filme], os caras, pô, renomadíssimos
lá no cinema americano e mundial. Pô, ia ser muito ruim”, afirmou Flávio.
Flávio também disse que o não cumprimento dos compromissos
financeiros poderia comprometer contratos, elenco, direção e toda a equipe do
longa. “Agora que é a reta final que a gente não pode vacilar, não pode não
honrar com os compromissos aqui, porque senão a gente perde tudo”, declarou.
Na resposta, Vorcaro pediu desculpas, afirmou que a semana
anterior havia sido muito difícil para ele e prometeu resolver a situação até o
dia seguinte. Na mesma noite, os dois fizeram uma ligação telefônica de cerca
de dois minutos e meio, de acordo com os registros obtidos pelo Intercept.
Cinco dias antes dessas mensagens entre Flávio e Vorcaro, o
BRB anunciou que o Banco Central havia reprovado
a venda do Master.
‘Tudo isso só está sendo possível por causa de vc’
As conversas seguintes mostram a manutenção do contato
frequente entre ambos. Ainda em setembro, Flávio e Vorcaro realizaram quatro
ligações e marcaram encontros presenciais em São Paulo.
Em uma troca de mensagens no dia 17, Vorcaro perguntou
“14:30?”, ao que Flávio respondeu: “Blz”. Em outubro, as cobranças se
intensificaram novamente. No dia 22, Flávio informou que as filmagens já
estavam no terceiro dia e que a produção havia chegado “no limite”. O senador
afirmou que, caso o apoio financeiro não pudesse continuar, seria necessário
avisar para que a equipe buscasse “outro caminho”. O banqueiro o tranquilizou:
“Deixa comigo”.
No mesmo dia, Flávio convidou Vorcaro para um jantar em São
Paulo com o ator Jim Caviezel e o diretor Cyrus Nowrasteh em 2 de novembro. O
banqueiro sugeriu realizar o encontro em sua própria residência e que poderia
reorganizar sua agenda para comparecer, pois “tinha uma viagem”. Flávio
sugeriu, mais tarde, a data de 6 de novembro. Não há confirmação, nos
registros, se o jantar de fato ocorreu.
Enviamos questionamentos para Nowrasteh e Caviezel, mas não
houve resposta até o momento de publicação.
No dia 7 de novembro, após enviar a Vorcaro um vídeo de
visualização única, Flávio escreveu: “Tá perdendo, irmão! Tudo isso só está
sendo possível por causa de vc”. Vorcaro responde: “Que demais”. Em seguida,
diz: “Ficou perfeito”.
Em dezembro de 2025, o Intercept
revelou que Karina Ferreira da Gama, produtora do filme no Brasil,
havia recebido pelo menos R$ 108 milhões da Prefeitura de São Paulo para operar
um contrato de Wi-Fi público sem concluir entregas previstas. Desde março, o
Ministério Público está investigando o contrato. A origem do dinheiro que
custeou a super produção permanecia, no entanto, uma incógnita. Enviamos questionamentos
para Gama, mas não houve resposta até a publicação. O espaço segue aberto.
O protagonista Jim Caviezel chegou a anunciar a estreia do
filme “Dark Horse” para 11 de setembro de 2026, poucas semanas antes da eleição
presidencial que Flávio Bolsonaro espera vencer. O site oficial do filme, no
entanto, não confirma que a produção tem data para chegar ao Brasil.
🚨 EXCLUSIVO: o Intercept Brasil obteve mensagens, documentos e áudios que revelam como Flávio Bolsonaro negociou diretamente com o banqueiro Daniel Vorcaro um pagamento milionário para financiar “Dark Horse”, filme sobre Jair Bolsonaro.
Contribuíram nesta reportagem: Ana Clara Barbosa,
Angélica Neiva, André Garavatti, Bianca Pyl, Eduardo Lima, Rafaela Silva,
Samantha Prado, Sarah Germano e Thalys Alcântara
Atualização: 13 de maio de 2026, 16h29 O texto foi atualizado para incluir as respostas da defesa do deputado
federal Mario Frias, do PL de SP, aos questionamentos do Intercept.
Atualização: 14 de maio de 2026, 09h38 O texto foi atualizado para incluir as respostas da assessoria de
imprensa do Grupo Entre aos questionamentos do Intercept.
Enquanto esteve na orla, foi tietado por apoiadores
do governo federal que pediram por fotos e registros do encontro com o Fabrício
- apontado pelo Ministério Público como operador de um esquema de desvio de
dinheiro público na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.
Junto ao bolsonarista estava o deputado federal Otoni de
Paula (PSL-RJ) - que recentemente foi alvo de buscas expedido pelo Supremo
Tribunal Federal (STF), investigado por incitar atos violentos e
antidemocráticos.
Bandido de estimação Fabrício Queiroz, apontado pelo MP como operador do esquema de "rachadinhas" no gabinete de Flávio Bolsonaro, hoje foi tietado por bolsonaristas no Rio de Janeiro.#ForaBolsonaropic.twitter.com/Auz2pD9V8w
Patriotas abraçam e festejam Queiroz, o homem no centro do escândalo do peculato da Família Bolsonaro. Do esconderijo em Atibaia para os braços dos homens de bem. pic.twitter.com/OFuLZejKHd
Em entrevista ao Metrópoles, senador diz que fatos que ligam
o 01 e advogados à vacina indiana estão sob investigação
A CPI da Pandemia está investigando o envolvimento
de Flávio Bolsonaro no caso Covaxin,
esquema que pode ter envolvido a promessa de propina para a compra pelo Ministério da Saúde de
uma vacina indiana. A revelação foi feita por Renan
Calheiros, relator da CPI, durante entrevista ao Metrópoles (assista
à íntegra ao fim deste texto) realizada por vídeo nessa quarta-feira
(7/7), quando explicou que estão sob investigação fatos sobre a participação do
filho mais velho do presidente da República e de dois advogados na negociação
de imunizantes: Willer Tomaz, próximo a diversos políticos do Centrão e amigo
de Flávio Bolsonaro, e Frederick Wassef, um dos integrantes da defesa de Flávio
e também seu amigo.
Questionado por que perguntou sobre Willer e Wassef a Luis Miranda,
há duas semanas, no depoimento do deputado do DEM-DF, Renan afirmou que o fez
porque tem conhecimento de fatos que lhe despertaram suspeitas sobre uma
possível atuação ilegal dos dois.
“O relator tem acesso a aspectos variados da investigação. E
eu, como relator, fico obrigado a toda vez que há dúvida sobre o envolvimento
de alguém, ou sobre uma relação indecorosa de alguém com seja lá quem for, você
tem que perguntar”, disse, sendo indagado na sequência qual seria a suspeita da
relação dos dois advogados com o caso Covaxin: “Não posso antecipar fatos, mas
eu queria te dizer que nós estamos investigando e vamos continuar investigando,
sim”, disse.
Wassef
Willer Tomaz
OMetrópoles perguntou, então, se Flávio
Bolsonaro também era investigado. Respondeu Renan: “Também, da mesma forma, né?
Alguns aspectos precisam ser investigados (…) Eu estou compromissado com essa
investigação, seja em qual direção ela puder caminhar”.
Na sequência, diante de nova insistência do Metrópoles sobre
quais fatos seriam esses, Renan voltou a dizer que não detalharia a respeito do
que tem conhecimento, mas apontou o que já considera a confissão de um crime
por parte de Flávio Bolsonaro:
“O Flávio, por exemplo, numa intervenção na própria Comissão
Parlamentar de Inquérito, confessou que teria levado o dono da Precisa
[laboratório que intermediava a compra da vacina indiana] ao BNDES, né? Isso é
a confissão de um crime. Advocacia administrativa [quando um servidor defende
interesses particulares no órgão em que trabalha]. Isso não é competência de um
senador da República. Levar um driblador da lisura e do dinheiro público
[Francisco Maximiano, dono da Precisa] a um banco oficial para obter
empréstimos não é correto do ponto de vista da atribuição de um senador. Isso
foi uma confissão.”
Renan Calheiros disse ainda que Flávio não é formalmente
investigado porque isso só ocorre “na medida em que você vai tendo conhecimento
dos fatos e das provas e dos indícios”.
Renan Calheiros diz que relação de Flávio Bolsonaro com caso Covaxin deve ser investigada. Suspeita do senador recai também sobre dois advogados. Assista à entrevista do senador a mim e ao @caio_barbieri. https://t.co/hMYEgAF8Qdpic.twitter.com/aK9AgkCWUN
Grupo comandado por pastor foi ao Ministério junto a
Dominguetti e ofereceu doses de Astrazeneca e Johnson em parceria com Davati
Em março, uma organização evangélica que articulou a
aquisição de vacinas com o Ministério da Saúde (MS) ofereceu imunizantes da
AstraZeneca e da Johnson para prefeituras e governos estaduais junto à Davati
Medical Supply, revela apuração exclusiva da Agência Pública. A reportagem teve
acesso à carta encaminhada aos prefeitos e governadores pela Secretaria
Nacional de Assuntos Humanitários (Senah) — presidida pelo reverendo Amilton
Gomes de Paula — na qual a entidade oferece as doses no valor de US$ 11 a
unidade, com prazo de entrega de até 25 dias. O valor seria 3 vezes maior que ofechado pelo Governo Federal para a mesma vacina da AstraZeneca com a Fiocruz,
que foi de US$ 3,16, e o dobro do valor do Instituto Sérum, de US$ 5,25.
Conforme a apuração, a carta da Senah teria sido enviada a
diversas prefeituras da região Sul do país. Uma delas foi parar em Ijuí,
município de pouco mais de 80 mil habitantes no noroeste do Rio Grande do Sul.
A Agência Pública conversou com Luciana Bohrer (PT), vereadora do gabinete
coletivo das Gurias, na cidade. Ela conta que tomou conhecimento da oferta por
meio de uma pessoa ligada à Senah e que não teve contato com representantes da
Davati.
Na época, de acordo com a vereadora, a organização
evangélica junto à Davati já haviam tentado “por mais de trinta dias” negociar
diretamente em reuniões com o Ministério da Saúde em Brasília, mas não teria
obtido sucesso. “Eram 400 milhões de doses, que eu me lembre, ainda seria
fechado em quatro pacotes de 100 milhões”, diz Bohrer. A carta da entidade
chegou à vereadora de Ijaí no dia 23 de março de 2021 e foi encaminhada ao
prefeito Andrei Cossetin, do Progressistas (PP). Segundo Bohrer, a negociação
não foi para frente. Procurada pela reportagem, a assessoria do prefeito
afirmou que ele estava em viagem e não respondeu até a publicação da
reportagem.
O reverendo Amilton Gomes, fundador e presidente da Senah,
esteve no Ministério da Saúde, conforme fotos publicadas em suas redes sociais
no dia 4 de março de 2021. Na postagem ele afirma que se reuniu com
representantes da pasta “para articulação mundial em busca de vacinas”. Na visita,
estava ao seu lado o policial militar de Minas Gerais Luiz Paulo Dominguetti,
que afirmou à Folha de S. Paulo que o diretor do Departamento de Logística
(DLOG) do Ministério da Saúde, Roberto Ferreira Dias, teria cobrado propina
para compra de vacinas . Também esteve na visita o major da Força Aérea
Brasileira (FAB) Hardaleson Araújo de Oliveira, antigo conhecido do pastor.
Na foto, o pastor Amilton Gomes, da Senah, em visita ao
Ministério da Saúde junto a Dominguetti (o primeiro da foto à esquerda), o
diretor do Departamento de Imunização e Doenças Transmissíveis, Lauricio
Monteiro Cruz (ao meio) e major da Força Aérea Hardaleson Araújo de Oliveira
(segundo à direita)
Pastor Amilton Gomes foi à vigilância sanitária do
Ministério da Saúde tentar articular vacinas, junto a major da Força Aérea
Brasileira
A carta da Senah encaminhada aos gestores é assinada por
Amilton Gomes e indica um e-mail da organização religiosa, da Davati e do
empresário Renato Gabbi como contatos para “maiores esclarecimentos”. Gabbi é
dono de um bar em Chapecó, em Santa Catarina. A reportagem procurou o
empresário, que não respondeu até a publicação.
Roberto Dias, que foi indicado ao cargo pelo líder de
governo na Câmara, Ricardo Barros (PP/PR), foi exonerado nesta quarta-feira
(30/06), após denúncia do jornal.
Também teriam participado desse encontro, segundo
Dominguetti, o tenente-coronel Marcelo Blanco, que era assessor do DLOG na
gestão de Roberto Dias, e um empresário de Brasília.
A reportagem procurou o Ministério da Saúde e questionou a
pasta sobre a visita da Senah, tratativas de negociação de vacina e relações
com Luiz Paulo Dominguetti. A assessoria não respondeu até a publicação.
Na foto, pastor Amilton Gomes ao lado do senador Flávio
Bolsonaro
Líder da Senah criou frente parlamentar religiosa
O reverendo Amilton Gomes parece ter bom trânsito no meio político de Brasília. Em suas redes sociais ele tem fotos com o filho do presidente Jair Bolsonaro, o senador Flávio Bolsonaro (Patriota/RJ), como mostra a imagem acima, publicada em junho de 2019. Em uma outra postagem de maio daquele ano, o religioso comemorou receber uma moção de louvor na Câmara dos Deputados. Recentemente, o pastor apareceu na divulgação da “Conferência Nacional de Liderazgo” ao lado da deputada federal bolsonarista Carla Zambelli (PSL/SP).
Amilton Gomes participou ainda da criação da Frente Parlamentar Mista Internacional Humanitária pela Paz Mundial (FremhPaz) junto ao pastor Laurindo Shalom, da Associação Internacional Cristã Amigos Brasil-Israel, e do deputado federal Fausto Pinato (PP/SP), em 17 de setembro de 2019.
No estatuto da frente, a Senah aparece com a missão de dar apoio jurídico “para pessoas e comunidades em situações de guerras, calamidades, e aos refugiados, em ajudas humanitárias nacionais e internacionais”. No mesmo artigo do estatuto, que trata da cooperação interdisciplinar, diz que a frente irá “fomentar e financiar cursos de formação na temática da proteção à liberdade religiosa e aos refugiados, especialmente por meio da Senar [atual Senah], promovendo o intercâmbio de experiências nacionais e internacionais”. A entidade também integra o conselho consultivo da frente.
A Secretaria Nacional de Assuntos Humanitários, que até o ano passado se chamava Secretaria Nacional de Assuntos Religiosos, foi fundada por Amilton Gomes em 1999. “Hoje nosso DNA está na cultura pela paz mundial, na fomentação de apoio ao meio ambiente, sempre buscando meios sustentáveis para o desenvolvimento da sociedade harmonizando Homem e Meio Ambiente”, informa em sua página na internet a entidade que tem sede em Brasília.
Líder da Igreja Batista Ministério da Nova Vista, Amilton Gomes também foi cabo do Exército, na década de 1990. Ele publicou imagens do Movimento Cristão Conservador Brasileiro com sua assinatura e sua foto e se apresenta como reitor da Faculdade Batista do Brasil, além de participar da direção de entidades de psicologia, como, por exemplo, a Sociedade de Psicologia do Centro-Oeste.
Procurado, Amilton Gomes confirmou as negociações e a visita ao Ministério da Saúde.
Líder religioso, Amilton Gomes foi homenageado no Congresso
e participou de criação de Frente Parlamentar
Davati procurou Pazuello para vender vacinas
Também em março, um representante oficial da Davati Medical
Supply procurou o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello enquanto ele chefiava o
ministério para negociar a venda de vacinas, revelam documentos que Pública
acessou via consulta de Acesso à Informação do governo federal.
De acordo com a troca de emails, o advogado Julio Adriano de
Oliveira Caron e Silva procurou Pazuello no seu email oficial da pasta no dia 9
de março deste ano. Na mensagem ele oferecia 300 milhões de doses da vacina AZD1222,
da Astrazeneca, para compra imediata pelo Ministério da Saúde. O advogado
informou que representava a empresa Davati Medical Supply LLC.
Em entrevista à reportagem, Adriano Caron confirmou
representar a Davati. Documento da empresa também o confirma como representante
no Brasil. Não há menção a outros representantes, como Luiz Paulo Dominguetti
Pereira.
O advogado disse não conhecer Dominguetti. “Como a empresa
me deu uma autorização de apenas representá-la aqui e oferecer as vacinas, eu
não sei se ela fez isso com outras pessoas. Talvez tenha feito, mas eu não
conheço essa pessoa, não sei das relações dele com o governo”, disse.
Caron também disse desconhecer qualquer operação da empresa
e de que a Davatti estaria ofertando a vacina da Johson.
O email enviado por Caron ao Ministério da Saúde foi
respondido no dia seguinte, 10 de março, pelo chefe de Gabinete do Ministro de
Estado da Saúde, o capitão Paulo César Ferreira Junior. O militar está à frente
do gabinete desde maio de 2020, quando Pazuello se tornou ministro. Homem de
confiança de Pazuello, ambos estiveram na intervenção federal em Roraima, em
2018, e receberam a Ordem do Mérito Forte São Joaquim.
Em resposta ao advogado, o capitão pediu uma carta de
autorização da Astrazeneca que concordasse com a intermediação da Davati. Caron
disse à Pública que as negociações não avançaram porque a empresa não o
retornou com os documentos solicitados pelo Ministério da Saúde.
“Dando seguimento com a Davati, pedindo maiores informações
sobre as vacinas, eles não conseguiram me confirmar a disponibilidade do
estoque e nem de que eles estavam autorizados pela empresa de vender vacinas
aqui no Brasil, então o negócio não seguiu em frente”, justificou Caron. “Não
marquei reunião nenhuma e a conversa não seguiu em frente”,
acrescentou.
Ainda segundo o advogado, “a Davati deixou bem claro que
iria buscar junto à fabricante das vacinas toda a documentação necessária para
vender”. “Se ela estava tentando negociar com a Astrazeneca a possibilidade de
oferecer essas vacinas para o Brasil, ou qualquer outro país, e ela não
conseguiu por algum motivo, talvez seja esse o motivo de que ela não me mandou
a informação porque o negócio seria fechado com a Astrazeneca, a Astrazeneca
que iria fornecer a vacina. Se ela não conseguiu autorização da Astrazeneca
para vender, parou de me mandar informação e eu não poderia vender um produto
que ela não tinha”.
Linha do tempo
25 de fevereiro — segundo Dominguetti, diretor de logística
do MS pediu propina para oferta de vacinas feita em nome da Davati
4 de março — pastor Amilton Gomes da Senah posta foto
no MS e anuncia articulação para vacinas
23 de março — carta da Senah assinada por Amilton Gomes
chega a Ijaí oferecendo vacinas da Davati
Dominguetti, que afirmou à @constancarezend ter recebido pedido de propina para negociar vacinas, afirmou hoje na CPI que o 1º contato com o Ministério da Saúde ocorreu junto a grupo religioso.