Cartas Marcadas é uma newsletter semanal que investiga a ascensão da extrema direita, as ameaças à democracia e os bastidores do poder em Brasília
Cartas Marcadas: Parte 40
A pressão para liberar recursos destinados ao financiamento do filme “Dark Horse” por parte do senador Flávio Bolsonaro, do PL do Rio de Janeiro, teve efeitos concretos na estrutura comandada por Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.
Mensagens obtidas com exclusividade pelo Intercept Brasil mostram que, em janeiro de 2025, Vorcaro passou a tratar os pagamentos ligados ao projeto cinematográfico como prioridade absoluta, mesmo em meio à necessidade de arcar com outros desembolsos milionários.
Naquele período, a execução dos pagamentos pessoais e empresariais de Vorcaro estava concentrada nas mãos do empresário e pastor Fabiano Zettel, cunhado do banqueiro e seu homem de confiança. Ele aparece em diversas conversas da série Vaza Flávio coordenando operações financeiras.
Em mensagens trocadas com Vorcaro, Zettel relata ter 55,5 milhões em pagamentos pendentes, entre despesas diversas – ele não especifica se o valor seria em reais ou dólares. Nenhum deles, porém, recebeu o mesmo tratamento dispensado ao filme de Bolsonaro. O material obtido pela reportagem indica que a mudança de prioridade nos desembolsos ligados ao banqueiro ocorreu logo após uma cobrança feita por Flávio Bolsonaro.
Em 20 de janeiro de 2025, data prevista para o primeiro aporte do cronograma financeiro revelado pela série Vaza Flávio, o empresário brasiliense Thiago Miranda — responsável por aproximar Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro nas negociações do projeto — enviou uma mensagem ao banqueiro: “Cara, hoje é a data limite daquele primeiro aporte filme. Preciso acelerar. Estamos no laço.”
Miranda afirma ainda que já havia falado com Fabiano Zettel,
escalado por Vorcaro para operacionalizar parte dos pagamentos, e encaminha ao
banqueiro uma captura de tela de uma conversa com Flávio Bolsonaro. Na mensagem
reproduzida, cuja data não é possível confirmar, o senador e pré-candidato à
Presidência pelo PL pede que Miranda pressione o jurídico do investidor para
destravar a operação.
“Fala Thiago, te escrevo a pedido do pessoal do nosso filme
pra vc dar um gás na resposta do jurídico do investidor”, escreve. Flávio
acrescenta: “Lembrando que estamos com o roteirista amarrado até janeiro só”. E
encerra em tom informal: “Ela me perturbam e eu te perturbo aqui!! rs”. Pouco
depois de receber a cobrança, Vorcaro responde a Miranda: “Vou atras aqui”.
Mensagens trocadas por Vorcaro nos dias seguintes sugerem
que o banqueiro efetivamente passou a acompanhar pessoalmente a situação.
Em 21 de janeiro, Zettel volta a procurar o banqueiro
pedindo orientação. “Me dá um norte?”. “Mesmo que seja ‘não faz porra nenhuma
até eu voltar’…”, escreve Zettel. “Total = 55,5M”, informa. Em seguida, ele
pergunta: “Manda quanto? Paga o que?”.
Horas depois, Vorcaro demonstra preocupação específica com o
projeto cinematográfico. “O filme ta nesse negocio?”. Zettel diz que não e
apresenta uma justificativa: “Porque o fluxo é gigante… 10 de 2.5 de dólares”.
A referência sugere um cronograma de pagamentos em dólares
de grande porte, compatível com os documentos financeiros posteriormente
obtidos pelo Intercept, que registram um planejamento de aportes de quase 24
milhões de dólares para o projeto cinematográfico – um total de R$ 134 milhões,
conforme a cotação na época.
A preocupação de Vorcaro com o tema se intensifica nos dias
seguintes. Pouco mais de uma semana depois, em 28 de janeiro de 2025, ele
procura novamente Zettel para saber se o pagamento relacionado ao filme
finalmente havia sido realizado. “Filme vc pagou?”. A resposta é
negativa: “Irmão, Não vem 1 real tem 3 semanas… kkkkkkk Paguei foi
nada…”, diz Zettel.
Poucos minutos depois, Zettel informa que o projeto sequer
aparecia entre as prioridades financeiras que estavam sendo processadas naquele
momento. “E filme não está na lista de 55.5.”, diz. É nesse contexto que
Vorcaro envia uma mensagem reveladora: “Esse e o mais importante disparado”. E
completa: “Nao pode falhar mais”.
As conversas chamam a atenção pelo contexto vivido pelo
próprio Banco Master naquele período. Documentos e investigações posteriores
indicaram que o banco já enfrentava dificuldades relacionadas à
liquidez, à captação de recursos e ao monitoramento regulatório desde o fim de
2024.
O Banco Central havia intensificado cobranças sobre capitalização e
liquidez da instituição, enquanto o grupo buscava novas fontes de recursos. É nesse cenário que as mensagens
revelam Vorcaro mobilizado para garantir que os aportes destinados ao filme não
fossem interrompidos.
Nós entramos em contato com Daniel Vorcaro, Fabiano Zettel,
Flávio Bolsonaro, Thiago Miranda e Paulo Calixto para obter posicionamentos
sobre as informações apresentadas pela reportagem. Até o momento, não houve
retorno. O espaço segue aberto.
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Os documentos revelados anteriormente pelo Intercept ajudam a
dimensionar o resultado prático dessa prioridade estabelecida por Vorcaro. Como
revelou a série Vaza Flávio, até maio de 2025, pelo menos 10,6 milhões de
dólares foram efetivamente recebidos pelo fundo Havengate, responsável pela
produção do filme e sob controle de Paulo Calixto, advogado do deputado federal
cassado Eduardo Bolsonaro, do PL de São Paulo.
Agora, os diálogos ajudam a compreender os bastidores desses
pagamentos. As conversas mostram que as transferências não eram tratadas como
uma operação qualquer dentro do universo de compromissos financeiros de
Vorcaro.
Pelo contrário, mesmo diante de dezenas de milhões de reais
em desembolsos pendentes e em meio às dificuldades enfrentadas pelo Banco
Master naquele período, o banqueiro determinou que o filme da família Bolsonaro
era, nas suas próprias palavras, “o mais importante disparado”.
Como sempre, a colaboração de fontes e leitores continua
sendo fundamental. Se você possui documentos, mensagens, contratos, planilhas,
gravações ou qualquer informação de interesse público relacionada a esta
investigação — ou a qualquer outro tema relevante —, entre em contato com o
Intercept por meio dos canais seguros de comunicação disponíveis em nossa página para
fontes.
Mensagens inéditas reveladas pelo Intercept Brasil mostram que os pagamentos para o filme "Dark Horse", sobre Jair Bolsonaro, eram prioridade para o banqueiro Daniel Vorcaro.
Quer entender melhor? Leia a reportagem completa da
newsletter Cartas Marcadas no site do Intercept Brasil:
Mensagens inéditas reveladas pelo Intercept Brasil mostram que os pagamentos para o filme "Dark Horse", sobre Jair Bolsonaro, eram prioridade para o banqueiro Daniel Vorcaro.
— Intercept Brasil (@TheInterceptBr) June 2, 2026
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Por: Paulo Motoryn, Laís Martins, Eduardo Goulart, Leandro Becker e Mauricio Moraes
Fonte: Intercept Brasil




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