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quarta-feira, 17 de junho de 2026

Bombardeios israelenses deixam milhares de libaneses sem documentos que comprovem sua identidade ou posse de terras


A campanha de Israel para arrasar enormes faixas do sul do Líbano pode destruir não apenas as casas das pessoas, mas até a possibilidade de que demonstrarem que são proprietárias, segundo moradores locais e autoridades do governo libanês – potencialmente impedindo centenas de milhares de libaneses de comprovar que têm alguma propriedade ou residência


Intercept Brasil
 

Imagens aéreas de Bint Jbeil, sede de um município do mesmo nome, mostram o que os moradores descrevem como marcas de incêndio em locais onde os registros oficiais eram mantidos: documentos do registro civil, escrituras de terras, a infraestrutura de papel que integra a existência jurídica de uma cidade.

O cartório não existe mais, os prédios do governo foram demolidos, e as casas que continuam importantes documentos pessoais sofreram destruição generalizada. Agora, os moradores de 36 vilarejos do distrito de Bint Jbeil temem que a guerra total de Israel signifique a destruição de todos os seus registros, o que poderia desvinculá-los permanente das casas que deixaram para trás quando fugiram sob ordens israelenses de evacuação.

Isso poderia transformar em pesadelo a reconstrução após a guerra. Bint Jbeil é o distrito mais a sudoeste do Líbano, e foi palco de uma campanha militar israelense para evacuar populações inteiras antes de arrasar seus vilarejos.

“O Ministério do Interior ainda não conseguiu ter acesso aos arquivos do registro civil do distrito de Bint Jbeil.”

Alguns libaneses inclusive consideram que é uma tática intencional, parte do plano de Israel para esvaziar o sul do líbao e estabelecer uma zona tampão ao sul do rio Litani. Os líderes israelenses esperam que isso deixe o norte de Israel fora do alcance dos foguetes do Hezbollah.

Um mukhtar, uma autoridade local, confirmou ao Intercept dos EUA que os arquivos do registro civil estão digitalizados apenas até 2020, o que oferece um alívio limitado. Muita coisa, no entanto, continua desaparecida. Há os documentos dos últimos seis anos, juntamente com inúmeros outros que não foram oficialmente registrados em razão da burocracia libanesa, notoriamente caótica, e da fiscalização ineficaz das regras de registro, que às vezes são desrespeitadas para evitar pagar tributos.

No centro da crise está o Grande Serralho de Bint Jbeil, o antigo prédio administrativo que abriga o registro de imóveis das dezenas de famílias em mais de 20 vilarejos do distrito. Desde a entrada das forças israelenses, as autoridades libanesas não conseguiram mais ter acesso ao prédio, embora tenham feito tentativas por meio do Comitê Internacional da Cruz Vermelha, que apresentou solicitações ao chamado Comitê do Mecanismo, que administra o acordo de cessar-fogo entre Israel e Líbano.

“O Ministério do Interior ainda não conseguiu ter acesso aos arquivos do registro civil do distrito de Bint Jbeil, porque o Comitê Internacional da Cruz Vermelha não recebeu aprovação do Comitê do Mecanismo, que inclui Israel, para entrar na área, embora tenha apresentado uma solicitação para tal, com o objetivo de recuperar os arquivos e transferi-los para o Ministério do Interior, em Beirute”, disse ao Intercept um porta-voz do ministério.

Em um comunicado enviado a um jornalista do Intercept em Nova York, um porta-voz das Forças de Defesa de Israel se recusou a comentar sobre o pedido da Cruz Vermelha, e afirmou que o grupo libanês Hezbollah instala ativos militares em áreas civis.

“As diretivas das FDI permitem a execução de operações de limpeza de estruturas usadas para fins militares, ou quando há uma necessidade operacional essencial que justifique a demolição total ou parcial de uma estrutura, de acordo com o direito internacional”, dizia o comunicado.

A destruição de infraestrutura civil na guerra só é permitida pelas leis da guerra em condições restritas: é preciso existir um propósito militar, e a destruição deve ser incidental a esse propósito.

Israel destruiu vilarejos inteiros na fronteira do Líbano. Os especialistas afirmam que essas ações podem constituir crimes de guerra. O ministro da defesa de Israel já disse anteriormente que: “todas as casas em vilarejos próximos à fronteira libanesa serão destruídos”.


O Grande Serralho


O ministro das Finanças do Líbano, Yassine Jaber, vem monitorando o Grande Serralho por satélite.

“As paredes ainda estão quase todas de pé”, disse ao Intercept, “mas os satélites não têm a chave das portas. Não sabemos o que aconteceu lá dentro. Os arquivos foram destruídos? Foram confiscados? A verdade ainda está do outro lado da linha de frente.”

Durante quatro semanas, Jaber comandou uma espécie de sala de operações de crise: ligações para o comando militar do Líbano, coordenação com a inteligência militar, tentativas reiteradas de entrar em contato com o Comitê do Mecanismo – o órgão multilateral que inclui Israel e monitora o acordo de cessar-fogo celebrado em meados de abril com o Hezbollah – e apelos à UNIFIL, a Força das Nações Unidas no Líbano.

Seu objetivo era estabelecer um corredor para uma única viagem a Bint Jbeil para recuperar os registros.

“Tentamos de tudo”, conta Jaber. “Mas Bint Jbeil neste momento é uma zona proibida.”

“Tentamos de tudo. Mas Bint Jbeil neste momento é uma zona proibida.”

Nem o Comitê Internacional da Cruz Vermelha conseguiu chegar aos arquivos.

“O CICV apoiou o Ministério do Interior na evacuação de alguns dos registros civis do sul do Líbano no começo da escalada”, explica Sally Aoun, porta-voz do CIVC no Líbano. “Não foi possível apoiar a evacuação em Bint Jbeil em razão das hostilidades em curso.”

Jaber teve sucesso em algumas outras áreas onde recuperar os registros se mostrou um desafio. Quando os combates chegaram a Marjayoun, no sul do Líbano, uma equipe de funcionários públicos entrou na cidade sob bombardeio para recuperar os registros civis. A mesma coisa aconteceu no distrito de Hasbaya.

Os registros da cidade de Tiro, no sul, agora são mantidos mais acima na costa, em Sidon. O ministério também conseguiu evacuar para Beirute os arquivos de Meiss El Jabal, Tibnine, Jbaa, Jouaya, e Nabatieh. O Ministério do Interior em Beirute designou um dia da semana para cada um dos registros distritais fazer o processamento das solicitações de documentação civil para os desabrigados do sul.

Bint Jbeil continua sendo a peça que falta.


Armadilha Jurídica


O Líbano tem um backup digital parcial. O Ministério das Finanças tem arquivos eletrônicos da maioria dos imóveis registrados no sul, uma rede de segurança para as escrituras que chegaram a ser registradas formalmente. No entanto, milhares de transações nunca foram registradas.

É o caso de Ali Khreizat, conhecido pelo honorífico Abu Hassan, que foi desalojado de sua casa no vilarejo de Aitaroun, no distrito de Bint Jbeil. Quando o vilarejo enfrentou o bombardeio israelense, Abu Hassan foi embora – mas deixou para trás, em uma gaveta no canto, uma bolsa de couro gasta que continha a escritura de compra e venda da terra em que viveu por cinco anos.

Abu Hassan fez as pazes com a destruição de sua casa, mas sua preocupação muito maior é que talvez nunca consiga comprovar que era dono da propriedade.

“Quem protege o direito do comprador se o contrato em papel desaparece?”

“A casa que eu construí pedra por pedra agora virou pó”, diz. “E o papel que diz que ela era minha foi com Deus.”

Mesmo cinco anos depois de se mudar, a escritura nunca chegou ao registro de imóveis. Como muitas pessoas no Líbano, Abu Hassan não teve pressa para cumprir os prazos burocráticos, e a lendária ineficiência estatal libanesa não oferecia muito incentivo para isso. Agora, ele soube pelos moradores locais que ainda estão na região que até o cartório foi destruído, o que reduziu ainda mais sua esperança de que exista em algum lugar uma cópia de sua escritura.

Como praticamente não há fiscalização das normas de registro – seja por uma indiferença em relação à papelada burocrática, seja por outro motivo, como evitar a tributação – o problema dos imóveis residenciais sem registro poderia deixar as pessoas sem meios de comprovação de que adquiriram propriedades.

“Isso criará um grande problema jurídico na comprovação da titularidade”, diz Jaber. “Quem é dono do quê? Quem protege o direito do comprador se o contrato em papel desaparece?”

Jaber conta que quando assumiu o cargo, em fevereiro de 2025, encontrou um sistema inadequado para os tempos atuais, em que tudo é online. Ele agora está supervisionando uma reforma completa para digitalização de documentos, um projeto que ele estima que levará seis meses para ser concluído.

“Um cofre digital”, diz, “que nenhum projétil pode alcançar e nenhum fogo pode apagar”.


Apagando o mapa


Os danos aos registros em Bint Jbeil podem ser ainda mais extensos do que qualquer documento individual.

Uma das principais preocupações é o destino do departamento de agrimensura. Essa unidade técnica detém os registros de medição que vinculam as divisas das propriedades a pontos de referência geográficos fixos, alguns deles remontando ao período do mandato francês. Esses pontos estão ligados, por meio de uma série de levantamentos históricos, a uma coordenada de referência em Homs, na Síria, que serve de âncora para o mapa cadastral nacional do Líbano desde a década de 1920.

Se esses marcos físicos do levantamento foram destruídos, segundo Riyad Al-Asaad, engenheiro civil da região sul, a pergunta passa a ser: quem controla os dados de georreferenciamento que definem as divisas? O Líbano ou Israel?

O risco, segundo Al-Asaad, é que as propriedades possam ser redesenhadas usando medições israelenses, uma nova realidade geográfica que se imporia sobre a antiga.

O general libanês aposentado Yaarab Sakhir considera que isso faz parte de um padrão deliberado, e aponta para a Doutrina Dahieh, uma estratégia militar israelense que foi nomeada em referência ao subúrbio de Beirute onde foi implementada pela primeira vez. A estratégia propõe ataques desproporcionais sobre infraestrutura civil para criar um alto custo para os inimigos de Israel, que funcione como uma forte contenção.

“Israel, quando aplica a Doutrina Dahieh, como fez em Gaza, que foi objeto de uma divisão 55/45 entre um corredor israelense e uma zona palestina – está fazendo a mesma coisa agora, ao sul do Litani”, diz. “Primeiro, deslocamento e despovoamento. Segundo, ataques repetidos. Terceiro, quando as áreas são tomadas militarmente – Bint Jbeil em primeiro lugar – eles mineram, demolem, e apagam todos os recursos, para tornar essas áreas inabitáveis e impedir que os moradores retornem.”

Prédios oficiais, segundo Sakhir, se tornam alvos específicos de Israel nesse programa.

“Israel se concentra em cartórios do registro civil e serralhos do governo”, diz. “O arquivo do serralho de Bint Jbeil abrange não apenas a cidade, mas todos os vilarejos do distrito.”

Em sua declaração ao jornalista do Intercept em Nova York, os militares israelenses negaram que estivessem atacando especificamente a infraestrutura civil.

“As FDI”, disse o porta-voz, “não atuam contra as instituições do Estado do Líbano, as Forças Armadas Libanesas, nem os civis libaneses, e rejeita as acusações de danos intencionais contra os registros da população, documentos civis, registros imobiliários ou instituições administrativas, ou qualquer intenção de desvincular os habitantes de suas terras ou prejudicar seus direitos de propriedade.”


Fantasmas em seu próprio país


Dados do Ministério do Interior mencionam 190 mil pessoas registradas como eleitores no distrito de Bint Jbeil, em 2025. Somando-se a geração de crianças e jovens que ainda não estão nesse cadastro, o número chega a aproximadamente 250 mil pessoas – todas elas, em graus variados, atingidas pelo desaparecimento dos registros oficiais de seu distrito.

Mohamed Sarhan, o mukhtar, ou líder local, de Kfarkela, um vilarejo da região norte do distrito de Bint Jbeil, disse ao Intercept que moradores e funcionários públicos do local relataram que as forças israelenses confiscaram registros imobiliários do distrito de Bint Jbeil. O destino desses registros ainda é incerto. Ninguém consegue dizer com certeza se foram queimados no bombardeio, levados, ou se simplesmente se perderam no caos.

Dalia Boussi deixou Bint Jbeil ao som do bombardeio. Como todas as outras pessoas que fugiram no começo do ano, ela pegou o que era possível. Boussi, produtora de vídeo, não está em pânico; ela conseguiu levar consigo seus documentos. Mas ela se preocupa com as pessoas que fugiram sem documentos, e com o que o estado deve fazer quando essas pessoas voltarem.

“Há destruição total do centro da cidade, como podemos ver nas imagens de satélite. Quando voltarmos, precisaremos redesenhar do zero as divisas das propriedades, e determinar quais terras são públicas ou privadas, antes que seja possível começar a reconstrução”, diz Boussi. “É importante que o estado e os ministérios relevantes tenham flexibilidade para facilitar as coisas para os cidadãos. Uma célula de crise deve ser criada em cada cidade, especificamente para rastrear os documentos de propriedade e arquivos do registro civil, e para garantir que todas as pessoas tenham seus documentos oficiais.”

Ela fez uma pausa e acrescentou: “não importa o que aconteça, ninguém vai perder sua identidade, nem alguns anos de idade”. A brincadeira reforça uma realidade: o povo de Bint Jbeil ainda existe. Seus registros podem ter desaparecido, mas os moradores locais sabem quem são, e sabem o que lhes pertencia.

Como disse Abu Hassan, o morador de Aitaroun cuja escritura provavelmente foi destruída com sua casa: “a batalha de amanhã não será apenas pela reconstrução. Será uma batalha para provar que existimos, depois que o arquivo foi saqueado ou incendiado.”



 A VERDADE CUSTA CARO. O SILÊNCIO CUSTA AINDA MAIS.


As informações que você acabou de ler incomodam muita gente poderosa. É por isso que tentam nos silenciar com processos, ameaças e difamação.

A única barreira entre a verdade e a impunidade é um jornalismo sem rabo preso. O Intercept Brasil não tem donos bilionários e não aceita um único centavo de bancos ou políticos.

Nós acabamos de entregar os fatos. Agora, a bola está com você.  Se essa história te indignou, transforme isso em ação. Mostre a eles que não estamos sozinhos e garanta que ninguém nos cale. 

Por:  Alaa Serhal

Fonte: Intercept Brasil


 Band Jornalismo


Ataques de Israel a Líbano continuam após acordo entre EUA e Irã



Sarah


Cenas apocalípticas na capital do Líbano.

Israel está bombardeando edifícios residenciais em bairros densamente povoados de Beirute.

Um cessar-fogo que ainda permite que bombas caiam sobre civis não é um cessar-fogo.



Israel está lançando produtos químicos tóxicos em terras agrícolas no sul do Líbano

Estamos falando de níveis catastróficos de glifosato, um químico ligado ao câncer

11.000 vezes acima dos níveis seguros

Isso é um crime de guerra deliberado destinado a tornar a vida impossível e forçar as pessoas a saírem de suas terras



Líbano 01

Líbano 02




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sexta-feira, 7 de junho de 2024

ONU adiciona Israel à 'lista negra' de países que prejudicam crianças em conflitos


Reportagem por New York Times: Desde que Israel invadiu Gaza, a base militar de Sde Teiman encheu-se de detidos vendados e algemados, detidos sem acusação ou representação legal.


New York Times

Os homens estavam sentados em filas, algemados e vendados, incapazes de ver os soldados israelenses que os vigiavam do outro lado de uma cerca de malha. Eles foram proibidos de falar mais alto do que um murmúrio e proibidos de ficar de pé ou dormir, exceto quando autorizados.

Alguns se ajoelharam em oração. Um deles estava sendo inspecionado por um paramédico. Outro teve permissão para remover brevemente as algemas para se lavar. As centenas de outros detidos de Gaza permaneceram em silêncio. Todos ficaram isolados do mundo exterior, impedidos durante semanas de contatar advogados ou parentes.

Esta foi a cena numa tarde do final de Maio, num hangar militar dentro de Sde Teiman, uma base militar no sul de Israel que se tornou sinônimo da detenção de palestinos de Gaza. A maioria dos habitantes de Gaza capturados desde o início da guerra, em 7 de outubro, foram levados ao local para interrogatório inicial, segundo os militares israelenses.

Os militares, que não concederam anteriormente acesso aos meios de comunicação social, permitiram ao The New York Times ver brevemente parte do centro de detenção, bem como entrevistar os seus comandantes e outros funcionários, sob a condição de preservar o seu anonimato.

Outrora um quartel obscuro, Sde Teiman é agora um local de interrogatório improvisado e um importante foco de acusações de que os militares israelitas maltrataram os detidos , incluindo pessoas mais tarde determinadas como não tendo ligações com o Hamas ou outros grupos armados. Nas entrevistas, ex-detentos descreveram espancamentos e outros abusos nas instalações.


Uma foto de palestinos detidos em Sde Teiman compartilhada com o The New York Times.

No final de Maio, cerca de 4.000 detidos de Gaza tinham passado até três meses no limbo em Sde Teiman, incluindo várias dezenas de pessoas capturadas durante os ataques terroristas liderados pelo Hamas contra Israel em Outubro, de acordo com os comandantes do local que falaram ao The Times.

Após o interrogatório, cerca de 70 por cento dos detidos foram enviados para prisões construídas especificamente para serem investigadas e processadas, disseram os comandantes. O resto, pelo menos 1.200 pessoas, foram considerados civis e regressaram a Gaza, sem acusação, pedido de desculpas ou compensação.

“Os meus colegas não sabiam se eu estava vivo ou morto”, disse, Muhammad Al-Kurdi de 38 anos, motorista de ambulância que os militares confirmaram ter estado detido em Sde Teiman no final do ano passado.


Muhammad al-Kurdi com uniforme de trabalho.

“Fiquei preso por 32 dias”, disse al-Kurdi. Ele disse que foi capturado em novembro, depois que seu comboio de ambulâncias tentou passar por um posto de controle militar israelense ao sul da Cidade de Gaza.

“Pareceram 32 anos”, acrescentou.

Uma investigação de três meses realizada pelo The New York Times – baseada em entrevistas com ex-detidos e com oficiais militares, médicos e soldados israelitas que serviram no local; a visita à base; e dados sobre detidos libertados fornecidos pelos militares – revelaram que esses 1.200 civis palestinos foram detidos em Sde Teiman em condições degradantes, sem a possibilidade de defender os seus casos perante um juiz durante até 75 dias. Os detidos também não têm acesso a advogados durante um período máximo de 90 dias e a sua localização é ocultada a grupos de defesa dos direitos humanos, bem como ao Comité Internacional da Cruz Vermelha, o que alguns especialistas jurídicos consideram ser uma violação do direito internacional.

Oito ex-detidos, todos os quais os militares confirmaram terem estado detidos no local e que falaram publicamente, disseram que foram esmurrados, pontapeados e espancados com cassetetes, coronhas de espingardas e um detector de metais portátil enquanto estavam sob custódia. Um disse que suas costelas foram quebradas depois que ele levou uma joelhada no peito e um segundo detento disse que suas costelas quebraram depois que ele foi chutado e espancado com um rifle, um ataque que um terceiro detento disse ter testemunhado. Sete disseram que foram forçados a usar apenas fralda durante o interrogatório. Três disseram que receberam choques elétricos durante os interrogatórios.


Fonte: Imagens de satélite do Planet Labs de 18 de abril de 2024

A maioria destas alegações foi repetida em entrevistas conduzidas por funcionários da UNRWA, a principal agência da ONU para os palestinos, uma instituição que Israel diz ter sido infiltrada pelo Hamas, uma acusação que a agência nega. A agência conduziu entrevistas com centenas de detidos que regressaram e que relataram abusos generalizados em Sde Teiman e noutros centros de detenção israelitas, incluindo espancamentos e utilização de uma sonda elétrica.

Um soldado israelense que serviu no local disse que outros soldados se gabavam regularmente de espancar detidos e viam sinais de que várias pessoas haviam sido submetidas a tal tratamento. Falando sob condição de anonimato para evitar um processo, ele disse que um detido foi levado para tratamento no hospital de campanha improvisado no local com um osso quebrado durante sua detenção, enquanto outro foi retirado de vista por um breve período e retornou com sangramento ao redor da costela. O soldado disse que uma pessoa morreu em Sde Teiman devido a ferimentos no peito, embora não esteja claro se o ferimento foi sofrido antes ou depois de chegar à base.


Soldados israelenses ao lado de um caminhão lotado de detidos palestinos amarrados e vendados, em Gaza, em dezembro. Segundo os militares israelitas, quase todos os detidos capturados em Gaza desde Outubro passaram algum tempo em Sde Teiman. Crédito…Moti Milrod/Haaretz, via Associated Press

O New York Times visitou parte da base de Sde Teiman, que se tornou sinónimo da detenção de habitantes de Gaza, em Maio. Patrick Kingsley, de Israel, e Bilal Shbair, de Gaza, passaram três meses entrevistando soldados israelenses que trabalhavam em Sde Teiman e palestinos ali detidos.


Antigos detidos palestinos que aguardavam tratamento dos ferimentos pouco depois de terem sido libertados de volta a Gaza em Dezembro.Crédito…Said Khatib/Agência France-Presse — Getty Images

“Qualquer abuso de detidos, seja durante a sua detenção ou durante o interrogatório, viola a lei e as directivas das FDI e, como tal, é estritamente proibido”, afirmou o comunicado militar. “As FDI encaram quaisquer atos deste tipo, que são contrários aos seus valores, com a maior seriedade, e examinam minuciosamente as alegações concretas relativas ao abuso de detidos.” O Shin Bet, a agência de inteligência nacional de Israel, que conduz alguns dos interrogatórios na base, disse num breve comunicado que todos os seus interrogatórios foram “conduzidos de acordo com a lei”.

Yoel Donchin, um médico militar que serve no local, disse que não está claro por que os soldados israelenses capturaram muitas das pessoas que ele tratou lá, algumas das quais eram altamente improváveis ​​de terem sido combatentes envolvidos na guerra. Um deles era paraplégico, outro pesava cerca de 130 quilos e um terceiro respirava desde a infância através de um tubo inserido no pescoço, disse ele.

“Por que os trouxeram – eu não sei”, disse Donchin.

“Eles levam todo mundo”, acrescentou.


Como os detidos são capturados

Fadi Bakr, um estudante de direito da cidade de Gaza, disse que foi capturado em 5 de janeiro por soldados israelenses perto da casa de sua família. Deslocado pelos combates no início da guerra, Bakr, 25 anos, regressou ao seu bairro em busca de farinha, apenas para ser apanhado no meio de um tiroteio e ferido, disse ele.


Fadi Bakr logo após sua libertação, por Fadi Bakr

Os israelenses o encontraram sangrando depois que os combates cessaram, disse ele. Eles o despiram, confiscaram seu telefone e suas economias, espancaram-no repetidamente e acusaram-no de ser um militante que sobreviveu à batalha, disse ele.

“Confesse agora ou atiro em você”, Bakr se lembra de ter ouvido.

“Eu sou um civil”, Bakr se lembra de ter respondido, sem sucesso.

As circunstâncias da prisão do Sr. Bakr refletem as de outros ex-detentos entrevistados pelo The Times.

Vários disseram que eram suspeitos de atividades militantes porque os soldados os encontraram em áreas que os militares pensavam abrigar combatentes do Hamas, incluindo hospitais, escolas da ONU ou bairros despovoados como o de Bakr.

Younis al-Hamlawi, 39 anos, enfermeiro sênior, disse que foi preso em novembro depois de deixar o Hospital Al-Shifa, na cidade de Gaza, durante uma operação israelense no local, que Israel considerava um centro de comando do Hamas. Soldados israelenses o acusaram de ter ligações com o Hamas.

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Younis al-Hamlawi, Bilal Shbair para o New York Times

Al-Kurdi, o motorista da ambulância, disse que foi capturado enquanto tentava levar pacientes através de um posto de controle israelense. Autoridades israelenses dizem que os combatentes do Hamas usam ambulâncias rotineiramente.

Todos os oito ex-detidos descreveram a sua captura de forma semelhante: eram geralmente vendados, algemados com fechos de correr e despidos, excepto a roupa interior, para que os soldados israelitas pudessem ter a certeza de que estavam desarmados.

A maioria disse que foi interrogada, esmurrada e pontapeada enquanto ainda estava em Gaza, e alguns disseram que foram espancados com coronhas de espingardas. Mais tarde, disseram, foram amontoados com outros detidos seminus em camiões militares e levados para Sde Teiman.

Alguns afirmaram que mais tarde passaram algum tempo no sistema prisional oficial israelita, enquanto outros afirmaram que foram trazidos directamente de volta para Gaza.

Durante seu mês no local, Bakr passou quatro dias, intermitentemente, sob interrogatório, disse ele.

“Considero esses os piores quatro dias de toda a minha vida”, disse Bakr.


Como o site se desenvolveu

Durante as guerras anteriores com o Hamas, incluindo o conflito de 50 dias em 2014, a base militar de Sde Teiman deteve intermitentemente um pequeno número de habitantes de Gaza capturados. Centro de comando e armazém de veículos militares, a base foi escolhida por ficar próxima de Gaza e abrigar um posto avançado da Polícia Militar, que supervisiona os centros de detenção militar.

Em Outubro, Israel começou a utilizar o local para deter pessoas capturadas em Israel durante o ataque liderado pelo Hamas, alojando-as num hangar de tanques vazio, segundo os comandantes do local. Depois que Israel invadiu Gaza, no final daquele mês, Sde Teiman começou a receber tantas pessoas que os militares reformaram três outros hangares para detê-los e converteram um escritório da polícia militar para criar mais espaço para interrogatórios, disseram.

No final de maio, disseram, a base incluía três locais de detenção: os hangares onde os detidos são guardados pela polícia militar; tendas próximas, onde os detidos são tratados por médicos militares; e uma instalação de interrogatório em uma parte separada da base, composta por oficiais de inteligência da diretoria de inteligência militar de Israel e do Shin Bet.

Classificados como “combatentes ilegais” ao abrigo da legislação israelita, os detidos em Sde Teiman podem ser detidos até 75 dias sem autorização judicial e 90 dias sem acesso a um advogado, muito menos a um julgamento.


Uma entrada para a base Sde Teiman, Avishag Shaar-Yashuv para o New York Times

Os militares israelenses afirmam que estes acordos são permitidos pelas Convenções de Genebra que regem os conflitos internacionais, que permitem o internamento de civis por razões de segurança. Os comandantes presentes no local disseram que era essencial atrasar o acesso a advogados, a fim de evitar que os combatentes do Hamas transmitissem mensagens aos seus líderes em Gaza, dificultando o esforço de guerra de Israel.

Após um interrogatório inicial em Sde Teiman, os detidos ainda suspeitos de terem ligações com militantes são geralmente transferidos para outro local militar ou para uma prisão civil. No sistema civil, eles deveriam ser formalmente acusados; em Maio, o governo disse numa apresentação ao Supremo Tribunal de Israel que tinha iniciado processos penais contra “centenas” de pessoas capturadas desde 7 de Outubro, sem fornecer mais detalhes sobre o número exacto de casos ou o seu estatuto. Não houve nenhum julgamento conhecido de moradores de Gaza capturados desde outubro.

Especialistas em direito internacional dizem que o sistema de Israel em torno da detenção inicial é mais restritivo do que muitos homólogos ocidentais em termos do tempo que os juízes levam para analisar cada caso, bem como na falta de acesso do pessoal da Cruz Vermelha.

No início da sua guerra contra os talibãs no Afeganistão, os Estados Unidos também atrasaram a revisão independente do caso de um detido durante 75 dias, disse Lawrence Hill-Cawthorne, professor de direito que escreveu uma visão geral das leis que regem a detenção de combatentes não estatais. Os EUA reduziram esse atraso em 2009 para 60 dias, enquanto no Iraque os casos foram revistos no prazo de uma semana, disse o professor.

A decisão de Israel de adiar a revisão judicial de um caso por 75 dias sem fornecer acesso a advogados ou à Cruz Vermelha “parece-me uma forma de detenção incomunicável, que em si é uma violação do direito internacional”, disse o professor Hill-Cawthorne.

Depois que Bakr desapareceu repentinamente em janeiro, disse ele, sua família não teve como descobrir onde ele estava. Eles presumiram que ele estava morto.


Onde vivem os detidos

Dentro de Sde Teiman, Bakr foi mantido em um hangar aberto, onde disse ter sido forçado, com centenas de outras pessoas, a sentar-se algemado em silêncio em uma esteira por até 18 horas por dia. O hangar não tinha parede externa, deixando-o aberto à chuva e ao frio, e os guardas o vigiavam do outro lado de uma cerca de malha.

Todos os detidos usavam vendas nos olhos – exceto um, conhecido pela palavra árabe “shawish”, que significa sargento. O shawish agia como intermediário entre os soldados e os prisioneiros, distribuindo comida e escoltando outros prisioneiros até um bloco de banheiros portáteis no canto do hangar.

Semanas depois, disse Bakr, ele foi nomeado shawish, o que lhe permitiu ver o que estava ao seu redor adequadamente.

Seu relato corresponde amplamente ao de outros detidos e é consistente com o que o The Times mostrou no local no final de maio.

Os comandantes no local disseram que os detidos podiam levantar-se a cada duas horas para se esticar, dormir aproximadamente entre as 22h00 e as 6h00 e rezar a qualquer hora. Durante um breve período em Outubro, disseram, os detidos foram autorizados a tirar as vendas e a circular livremente dentro dos hangares. Mas esse acordo terminou depois que alguns detidos se tornaram indisciplinados ou tentaram desbloquear as algemas, disseram os comandantes.

Exausto após a viagem para Sde Teiman, Bakr adormeceu logo após sua chegada – o que levou um oficial a convocá-lo para uma sala de comando próxima, disse ele.

O oficial começou a espancá-lo, disse Bakr. “Este é o castigo para quem dorme”, lembrou o oficial dizendo.

Outros descreveram respostas semelhantes a infrações menores. Rafiq Yassin, 55 anos, um construtor detido em dezembro, disse que foi espancado repetidamente no abdômen depois de tentar espiar por baixo da venda. Ele disse que começou a vomitar sangue e foi tratado em um hospital civil na cidade vizinha de Beersheba. Questionado sobre a alegação, o hospital encaminhou o The Times ao Ministério da Saúde, que não quis comentar.


Rafiq Yassin, Bilal Shbair para o New York Times

O soldado israelita que testemunhou abusos num hangar disse que um detido foi espancado com tanta força que as suas costelas sangraram depois de ter sido acusado de espreitar por baixo da venda, enquanto outro foi espancado depois de falar demasiado alto e com demasiada frequência.

O Times não testemunhou quaisquer espancamentos durante a visita ao hangar, onde alguns detidos foram vistos rezando enquanto outros foram avaliados por paramédicos ou trazidos pelo shawish para se lavarem numa pia na parte de trás do hangar. Um homem pôde ser visto espiando por baixo da venda sem punição imediata.

Tal como os outros ex-detidos, Bakr recorda-se de receber três escassos lanches na maioria dos dias – normalmente pão servido com pequenas quantidades de queijo, compota ou atum e, ocasionalmente, pepinos e tomates. Os militares afirmaram que as provisões alimentares foram “aprovadas por nutricionista credenciado para manutenção da saúde”.

Segundo vários ex-detentos, não foi suficiente. Três disseram que perderam mais de 40 quilos durante a detenção.

Alguns tratamentos médicos estão disponíveis no local. Os comandantes levaram o Times a um escritório onde disseram que os médicos examinavam todos os detidos à chegada, além de os monitorizarem todos os dias nos hangares. Os casos graves são tratados num aglomerado de tendas próximas que formam um hospital de campanha improvisado.

Dentro dessas tendas, os pacientes são vendados e algemados às suas camas, de acordo com um documento do Ministério da Saúde que descreve as políticas para o local, que foi revisto pelo The Times.

Durante a visita, quatro médicos do hospital disseram que essas medidas eram necessárias para evitar ataques à equipe médica. Eles disseram que pelo menos dois prisioneiros tentaram agredir os médicos durante o tratamento.

Mas outros, incluindo o Dr. Donchin, disseram que em muitos casos as algemas eram desnecessárias e dificultavam o tratamento adequado das pessoas.


Um ex-detento palestino em uma cama de hospital no mês passado, mostrando feridas causadas, disse ele, pelo tratamento recebido na detenção israelense. Hatem Khaled/Reuters

Dois israelenses que estiveram no hospital no ano passado disseram que os funcionários eram muito menos experientes e mais mal equipados durante as fases anteriores da guerra. Um deles, que falou sob condição de anonimato para evitar processos, disse que na altura os pacientes não recebiam analgésicos suficientes durante procedimentos dolorosos.

A Physicians for Human Rights, um grupo de direitos humanos em Israel, afirmou num relatório publicado em Abril que o hospital de campanha era “um ponto baixo para a ética e o profissionalismo médicos”.

A actual liderança do hospital reconheceu que nem sempre esteve tão bem equipado como está, mas disse que o seu pessoal sempre foi altamente experiente.

O Dr. Donchin disse que, em alguns aspectos, o tratamento na clínica de campo era agora “um pouco melhor” do que nos hospitais civis israelenses, principalmente porque contava com alguns dos melhores médicos de Israel. O Dr. Donchin, tenente-coronel da reserva militar, foi anestesista de longa data em um grande hospital em Jerusalém e agora leciona em uma importante escola de medicina.

As instalações e equipamentos vistos pelo The Times incluíam uma máquina de anestesia, um monitor de ultrassom, equipamento de raios X, um dispositivo para análise de amostras de sangue, uma pequena sala de operações e um depósito contendo centenas de medicamentos.

Os médicos que trabalham em Sde Teiman e que falaram com o The Times disseram que também foram orientados a não escrever seus nomes em nenhuma documentação oficial e a não se dirigirem uns aos outros pelo nome na frente dos pacientes.

O Dr. Donchin disse que as autoridades temiam poder ser identificadas e acusadas de crimes de guerra no Tribunal Penal Internacional.

Durante a visita do The Times, três médicos disseram não temer serem processados, mas procuraram o anonimato para evitar que o Hamas e os seus aliados os atacassem ou às suas famílias.


Como funcionam os interrogatórios

Aproximadamente quatro dias após sua chegada, Bakr disse que foi chamado para interrogatório.

Tal como outros que falaram ao The Times, ele lembrou-se de ter sido levado para um recinto separado que os detidos chamavam de “sala discoteca” – porque, segundo eles, eram forçados a ouvir música extremamente alta que os impedia de dormir. Bakr considerou isso uma forma de tortura, dizendo que era tão doloroso que o sangue começou a escorrer de dentro de sua orelha.

Os militares israelitas disseram que a música “não era alta nem prejudicial”, tocada ao alcance da voz tanto de israelitas como de palestinianos, e tinha como objectivo evitar que os detidos conversassem facilmente entre si antes do interrogatório. O Times não viu nenhuma parte do complexo de interrogatório, incluindo a área onde a música era tocada.

Usando apenas uma fralda, disse Bakr, ele foi levado a uma sala separada para ser interrogado.

Os interrogadores acusaram-no de ser membro do Hamas e mostraram-lhe fotografias de militantes para ver se conseguia identificá-los. Eles também perguntaram a ele sobre o paradeiro dos reféns, bem como sobre um importante líder do Hamas que morava perto da casa da família de Bakr. Quando Bakr negou qualquer ligação com o grupo ou conhecimento dos homens retratados, ele foi espancado repetidamente, disse ele.

Al-Hamlawi, o enfermeiro sênior, disse que uma oficial ordenou que dois soldados o levantassem e pressionassem seu reto contra uma vara de metal fixada no chão. Al-Hamlawi disse que a vara penetrou em seu reto por cerca de cinco segundos, causando sangramento e deixando-o com “dor insuportável”.

Um rascunho vazado do relatório da UNRWA detalhou uma entrevista que deu um relato semelhante. Citou um detento de 41 anos que disse que os interrogadores “me fizeram sentar em algo parecido com uma vara de metal quente e parecia fogo”, e também disse que outro detento “morreu depois que colocaram o bastão elétrico” em seu ânus.

Al-Hamlawi lembra-se de ter sido forçado a sentar-se numa cadeira ligada à electricidade. Ele disse que ficava chocado com tanta frequência que, depois de urinar incontrolavelmente, parou de urinar por vários dias. Al-Hamlawi disse que ele também foi forçado a usar apenas uma fralda para evitar que sujasse o chão.

Ibrahim Shaheen, 38 anos, motorista de caminhão detido no início de dezembro por quase três meses, disse que levou choques cerca de meia dúzia de vezes enquanto estava sentado em uma cadeira. Os policiais o acusaram de ocultar informações sobre a localização dos reféns mortos, disse Shaheen.

Bakr também disse que foi forçado a sentar-se em uma cadeira ligada à eletricidade, enviando uma corrente pulsante por seu corpo que o fez desmaiar.


Liberado sem cobrança

Depois de mais de um mês de detenção, disse Bakr, os policiais pareciam aceitar sua inocência.

Certa manhã de fevereiro, o Sr. Bakr foi colocado em um ônibus em direção à fronteira de Israel com o sul de Gaza: após um mês de detenção, ele estava prestes a ser libertado.

Ele disse que pediu seu telefone e os 7.200 shekels (cerca de US$ 2.000) que lhe foram confiscados durante sua prisão em Gaza, antes de chegar a Sde Teiman.

Em resposta, um soldado bateu nele e gritou com ele, disse Bakr. “Ninguém deveria perguntar sobre seu telefone ou dinheiro”, disse o soldado, segundo Bakr.

Os militares disseram que todos os pertences pessoais foram documentados e colocados em sacos lacrados depois que os detidos chegaram a Sde Teiman e retornaram quando foram libertados.


A passagem da fronteira de Kerem Shalom no mês passado. Shanon Stapleton / Reuters

Perto do amanhecer, o autocarro chegou ao ponto de passagem de Kerem Shalom, perto do extremo sul de Gaza.

Tal como outros detidos que regressaram, Bakr caminhou cerca de um quilómetro e meio antes de ser recebido por trabalhadores humanitários da Cruz Vermelha. Eles o alimentaram e verificaram brevemente sua condição médica. Depois levaram-no para um terminal próximo onde, segundo ele, foi brevemente interrogado por autoridades de segurança do Hamas sobre a sua estada em Israel.

Pegando um telefone emprestado, ele ligou para sua família, que ainda estava a 32 quilômetros de distância, na Cidade de Gaza.

Foi a primeira vez que tiveram notícias dele em mais de um mês, disse Bakr.

“Eles me perguntaram: ‘Você está vivo?’”

Iyad Abuheweila contribuiu com reportagens de Istambul; Gabby Sobelman de Rehovot, Israel; e Ronen Bergman de Tel Aviv.

Patrick Kingsley é o chefe da sucursal do The Times em Jerusalém, liderando a cobertura de Israel, Gaza e Cisjordânia. Saiba mais sobre Patrick Kingsley

Fontes: FEPAL / The New York Times