Consegui abrir a caixa-preta dos patrocínios que a Embrapa,
principal referência em pesquisa agropecuária no país, recebeu de empresas na
COP30
Intercept Brasil
Foram ao menos R$ 17,8 milhões em patrocínios para
atividades como promover o agronegócio brasileiro — um dos maiores
emissores de gases de efeito estufa do país — como solução para a
crise climática. Nós revelamos isso numa reportagem que publicamos nesta
semana no Intercept Brasil.
Descobri que somente a CNA, entidade vinculada à bancada
ruralista no Congresso, pagou quatro vezes mais do que os dados
públicos apontavam.
Você deve estar se perguntando como cheguei a esse número.
Bem, não foi fácil. Foi uma peleja de cinco meses — e eu te conto agora
como fiz.
Fiquei encucada ao ver nomes como a da fabricante
de pesticidas Bayer, da multinacional suíça de alimentos Nestlé e da gigante
automotiva Toyota na lista de patrocinadores e resolvi tentar
descobrir o quanto elas tinham desembolsado.
E por que isso importa?
A Embrapa foi questionada por ONGs, ambientalistas e
integrantes dos movimentos de agricultura familiar por emprestar sua
credibilidade para empresas e instituições ligadas a desmatamento, suspensão da
demarcação de terras indígenas e produção de agrotóxicos —em
um exemplo perfeito do greenwashing, a propaganda verde
enganosa, dentro da COP30.
Só para dar uma ideia, a CNA — que deu R$ 10 milhões
à Embrapa — se autodenomina a voz do agro do Brasil, ajuda
a financiar a bancada ruralista e, portanto, a passar a boiada de destruição no
Congresso.
Sabe o PL da Devastação?
A CNA aprova e defende. E as novas homologações e
demarcações de terras indígenas, anunciadas depois de muito protesto durante a
COP30? Pronto, dois dias depois do fim da cúpula, a CNA foi lá e pediu ao STF a suspensão de tudo.
Não dá pra dizer que a entidade é uma grande amiga da
natureza, né?
A saga pela informação pública e por mais transparência
2
de julho: Enviei um pedido via Lei de Acesso à
Informação, a LAI – a lei que permite solicitar informações ao
poder público – requisitando à Embrapa as respostas de um formulário de
manifestação de interesse em patrocinar a “Jornada pelo Clima”.
1º
de agosto: A Embrapa alegou que "não era possível
abrir o link" do próprio formulário que ela havia criado.
3
de agosto: Recorri em primeira instância, provando que o link
estava disponível.
12
de agosto: A Embrapa voltou a responder, alegando que a
divulgação dos valores era “informação restrita” e
poderia “prejudicar os interesses” em novas captações.
Ignoraram que eu havia pedido para tarjar dados pessoais!
21
de agosto: Voltei a recorrer!
28
de agosto: A Embrapa disponibilizou a minuta contratual base,
mas não as cotas aderidas nem as respostas ao formulário.
28
de agosto (ainda): Escalamos para a última instância, a Controladoria-Geral
da União, a CGU.
29
de outubro:Deu certo! A CGU me deu ganho de causa.
Depois da publicação da nossa reportagem, a Embrapa adicionou no site da
“Jornada pelo Clima” uma aba de transparência sobre os patrocínios. Lá estão
toda a movimentação financeira, contratos, notas fiscais e prestações de contas
– exatamente como deve ser.
Também conseguimos acesso às respostas que as empresas deram, no formulário de
interesse, para se justificar alinhadas aos objetivos da COP30 e comprometidas
com um futuro mais sustentável.
E se tiver perguntas que gostaria que fizéssemos aos órgãos
públicos usando a LAI, me manda uma mensagem no alice.souza@intercept.com.br.
Obrigado por nos acompanhar. Precisa de ajuda com a sua
doação ou quer esclarecer alguma dúvida? Nosso e-mail é: membros@intercept.com.br
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nossa comunidade, mas se você mudou de ideia e não quer receber nossa
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Segundo levantamento, em 4 meses, Syngenta e Bayer registram
autorização para exportar ao Brasil 2,2 mil toneladas de pesticidas com
substâncias com uso banido na União Europeia
O Brasil é o destino de mais da metade dos registros de
exportações da União Europeia de agrotóxicos proibidos na Europa e associados à
morte de abelhas. São inseticidas à base de três neonicotinóides: tiametoxam,
imidacloprido e clotianidina. Entre setembro e dezembro de 2020, mais de 3,8
mil toneladas dessas substâncias foram registradas para serem exportadas
na Agência Europeia das Substâncias Químicas (ECHA) — o Brasil era o
destino de 2,2 mil toneladas, 58% do total.
Os dados inéditos, obtidos com exclusividade pela Agência
Pública e a Repórter Brasil, são resultado de um levantamento da Public Eye, organização suíça,
em parceria com a Unearthed, braço de jornalismo investigativo do
Greenpeace. É a primeira vez que são revelados números sobre a
quantidade dos pesticidas neonicotinoides enviados ao exterior por países
europeus. As substâncias imidacloprido, clotianidina e tiametoxam foram banidas
na União Europeia em 2018. Desde setembro de 2020, empresas de lá são obrigadas
a notificar exportações de produtos com esses princípios ativos. As
notificações são estimativas emitidas antes de o produto ser despachado.
Os produtos registrados para serem enviados ao Brasil foram
produzidos por duas empresas: Syngenta e Bayer. Ao todo, eles continham 318
toneladas das substâncias ativas proibidas.
O principal deles foi o Engeo Pleno S, produzido pela
Syngenta na Bélgica — a empresa registrou mais de 2,2 milhões de litros do
produto para ser enviado para o Brasil. Ele é o mais vendido pela Syngenta no
país e costuma ser utilizado principalmente por produtores de soja. O Engeo
contém uma mistura do neonicotinóide tiametoxam e do inseticida
lambda-cialotrina, também altamente tóxico para as abelhas.
Às organizações, a Syngenta respondeu que “seus produtos são seguros e
efetivos quando usados dentro das recomendações” e que “a empresa atua sempre
de acordo com a legislação e regulamentação local”. A Syngenta ainda afirmou
que “atesta a segurança e a eficácia do tiametoxam” e que, “sem pesticidas, as
perdas [na produção agrícola] seriam catastróficas”.
Já a Bayer respondeu que “apesar de aceitar a decisão da
União Europeia de cessar a aprovação aos neonicotinoides, a empresa destaca que
agências reguladoras por todo o mundo confirmaram o uso seguro desses produtos
após revisões cuidadosas.”. A empresa, contudo, confirmou que “a pulverização
deve ser estritamente evitada em plantações que atraiam abelhas durante a
floração para evitar exposição desses insetos”.
Além do Brasil, outros 59 países estão na lista de destinos
dos produtos proibidos na União Europeia. Os principais são a Rússia, Ucrânia,
Argentina, Irã, África do Sul, Indonésia, Gana, Mali e Cingapura. Já a lista
dos maiores exportadores é encabeçada pela Bélgica, França e Alemanha, seguidos
por Espanha, Grécia, Reino Unido, Dinamarca, Áustria e Hungria.
Morte de meio bilhão de abelhas no Brasil esteve relacionada
à pesticida do grupo dos neonicotinóides
Os neonicotinóides são quimicamente semelhantes à nicotina e
matam insetos atacando seu sistema nervoso central. Eles foram introduzidos na
década de 1990 e são os inseticidas mais usados no mundo. Altamente solúveis
em água, eles podem ser facilmente transportados para lagos, rios e lençóis
freáticos, além de se acumularem no solo.
No Brasil, MPF tenta barrar pulverização com
neonicotinóides
Os dados obtidos pela Unearthed e Public
Eye foram publicados no momento em que a Comissão Europeia avalia pôr
fim à fabricação dos produtos para exportação, um passo adiante após a
proibição do uso das substâncias na Europa.
Em resposta às organizações que realizaram a investigação, a
Hungria e o Reino Unido afirmaram que o sistema atual é baseado no
consentimento prévio dos países importadores. Bélgica, Dinamarca e França
afirmaram apoiar uma proibição local de exportação. Na França, a proibição de
exportação de pesticidas proibidos na União Europeia já foi imposta e entrará
em vigor em 2022. Esta medida “deve ser adotada e implementada” na região, diz
o governo francês, porque “não é aceitável expor o meio ambiente e a saúde em
outros países” a estas substâncias. A Espanha também sinalizou proposta nesta
direção. Já a Alemanha diz estar “ansiosa” por propostas concretas da Comissão
Europeia sobre o tema.
No Brasil, o Ministério Público Federal (MPF) ajuizou, em
agosto deste ano, uma ação civil pública contra o Instituto Brasileiro
do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para que o órgão
ambiental proíba a pulverização aérea de agrotóxicos com as três substâncias
neonicotinóides exportadas pela Europa (imidacloprido, clotianidina e
tiametoxam), além do pirazol.
O Ibama já havia proibido a pulverização aérea dessas
substâncias em 2012. O órgão, no entanto, liberou provisoriamente a aplicação dos
pesticidas em lavouras de algodão, arroz, cana-de-açúcar, soja e trigo até que
fossem encerrados os processos de reavaliação dos efeitos sobre o meio ambiente
— o que até hoje não ocorreu.
O procurador da República Matheus Baraldi Magnani, autor da
ação civil pública, considera o número de mortes de abelhas um caso
“extremamente grave, subdimensionado e silencioso” e analisa que a omissão do
Ibama consolidou, na prática, a autorização para o uso dos pesticidas. “Tal
problema é diariamente agravado pela inconstitucional escolha do Poder Público
em priorizar fortes setores econômicos em detrimento do meio ambiente”,
argumentou Magnani no documento. “A pulverização aérea de neonicotinóides e
pirazol é, numa analogia, uma assassina silenciosa para as abelhas, assim como
o monóxido de carbono é para os humanos”, disse.
Os pedidos do MPF restringem-se à aplicação dos produtos com
uso de aviões. Caso a Justiça Federal acolha os requerimentos, ainda será
permitida a pulverização terrestre.
Meio bilhão de abelhas mortas em três meses
Em 2019, um levantamento da Pública e Repórter
Brasil mostrou que mais de 500 milhões de abelhas foram encontradas
mortas em quatro estados brasileiros em apenas três meses, entre
dezembro de 2018 e fevereiro de 2019. Foram 400 milhões no Rio Grande do Sul, 7
milhões em São Paulo, 50 milhões em Santa Catarina e 45 milhões em Mato Grosso
do Sul, segundo estimativas de Associações de apicultura, secretarias de
Agricultura e pesquisas realizadas por universidades.
Em Cruz Alta, município de 60 mil habitantes no Rio Grande
do Sul, mais de 20% de todas as colmeias foram perdidas apenas
entre o Natal de 2018 e o começo de fevereiro de 2019. Cerca de 100 milhões de
abelhas apareceram mortas, segundo a Apicultores de Cruz Alta (Apicruz).
O principal causador das mortes das abelhas é o contato com
agrotóxicos à base de neonicotinóides e de pirazol, proibido na Europa há mais
de uma década. Um estudo de 2018 da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)
em parceria com a Universidade Estadual Paulista (Unesp) demonstrou que 67% das
mortes em coletas de abelhas analisadas em São Paulo — estado que representa
10% da produção nacional de mel — ocorreram devido ao uso incorreto dos
inseticidas.
As abelhas são as principais polinizadores da maioria dos
ecossistemas do planeta e promovem a reprodução de diversas espécies de
plantas. No Brasil, das 141 espécies de plantas cultivadas para alimentação
humana e produção animal, cerca de 60% dependem em certo grau da polinização
deste inseto. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a
Agricultura (FAO), 75% dos cultivos destinados à alimentação humana no mundo
dependem das abelhas.
Sem abelhas, sem alimentos; insetos são responsáveis pela
polinização e reprodução de diversas espécies de plantas
Cada espécie é mais propícia para polinização de
determinadas culturas, explica Carmem Pires, pesquisadora da Embrapa e doutora
em Ecologia de Insetos. O resultado é que, se as abelhas fossem extintas,
deixaríamos de consumir frutas como a mangaba. Ou elas ficariam mais caras, já
que o trabalho de polinização para produzi-la teria que ser feito manualmente
pelo ser humano.
A estudiosa conta que até em lavouras que não são
dependentes da ação direta dos polinizadores, a presença de abelhas aumenta a
safra. “Na de soja, por exemplo, é identificado um aumento em 18% da produção.
É importante destacar também o efeito em cadeia. As plantas precisam das
abelhas para formar suas sementes e frutos, que são alimento de diversas aves,
que por sua vez são a dieta alimentar de outros animais. A morte de abelhas
afeta toda a cadeia alimentar.”
No Brasil, há mais de 300 espécies de abelhas nativas —
entre elas Melipona scutellaris, Melipona quadrifasciata, Melipona fasciculata,
Melipona rufiventris, Nannotrigona testaceicornis, Tetragonisca angustula. Em
todo país, contando com as estrangeiras, há cerca de 1,6 mil espécies do
inseto, segundo relatório do Ibama.
O UOL News repercute a reportagem publicada pelo UOL sobre
fazendeiros que jogam agrotóxicos sobre a Amazônia e outros biomas para
acelerar o desmatamento, segundo um levantamento inédito feito pela Repórter
Brasil e Agência Pública.
Prática traz lucro para multinacionais e transfere riscos de
saúde para trabalhadores e meio ambiente brasileiros
Syngenta é a empresa que mais “desova” agrotóxicos proibidos
no Brasil
De 770 amostras de alimentos vendidos pelo Brasil à Europa,
97 tinham agrotóxicos proibidos pelo bloco
Dados inéditos revelam que o Brasil é o segundo maior
comprador de agrotóxicos fabricados em solo europeu, mas proibidos para uso na
União Europeia e Inglaterra. A prática já era conhecida, mas pela primeira vez
se revela a importância do Brasil neste mercado. Foram 10 mil toneladas em
2018, e 12 mil em 2019. Mais da metade (77%) saiu da fábrica da Syngenta na
Inglaterra, onde a empresa produz o agrotóxico paraquate.
O bloco autoriza a exportação de agrotóxicos que considera
perigosos demais para aplicação na sua agricultura, mas tolera a importação de
alimentos cultivados com estes produtos em outros continentes. “É o ciclo do
veneno. Sabemos que esses agrotóxicos são perigosos, mas os vendemos e
externalizamos os impactos de nosso próprio consumo. Enquanto isso, camponeses,
indígenas e pessoas que vivem próximas ao campo sofrem no Brasil”, diz Laurent
Gaberell, um dos autores do levantamento. Ele é pesquisador da Public Eye,
organização suíça que monitora o comportamento de empresas do país. Os dados
sobre venda de agrotóxicos foram obtidos pela organização em parceria com a Unearthed,
braço de jornalismo investigativo do Greenpeace (veja dados completos eminglês).
A prática foi classificada como “discriminatória” e “uma
contradição legislativa” por Baskut Tuncak, que foi relator especial da ONU
para substâncias tóxicas de 2014 a julho de 2020. “A União Europeia não tolera
esses agrotóxicos em seu território, mas, fora da União Europeia, diz que não é
problema seu”, afirma Tuncak em entrevista à Repórter Brasil e à Agência
Pública. Segundo o relator, essa situação só é permitida graças a “brechas
legais” criadas para atender à indústria de agrotóxicos, que “segue violando
direitos humanos fora da Europa”.
Apenas em 2018, foram mais de 81 mil toneladas autorizadas
para fabricação na União Europeia e Inglaterra e venda a 85 países que não
fazem parte do bloco. Os dados são de autorizações para exportação, por isso é
possível que o volume efetivamente vendido seja menor.
São 41 tipos diferentes de agrotóxicos proibidos dentro do
bloco europeu, mas autorizados para fabricação e exportação. Dentre os motivos
que levaram a União Europeia a proibi-los estão evidências sobre sua relação
com infertilidade, malformações de bebês, câncer, contaminação da água e toxicidade
para animais, como as abelhas.
A Public Eye e o Unearthed usaram leis de acesso à
informação para obter dados da Agência Europeia de Produtos Químicos e de
órgãos do Reino Unido, Alemanha, Bélgica e França, onde ficam algumas das
maiores fábricas de grandes produtoras, como Bayer, Syngenta e Basf.
“As empresas ficavam escondidas atrás do escudo da
confidencialidade comercial. Pela primeira vez conseguimos acessar todas essa
informações sobre 41 agrotóxicos”, afirma Gaberell, da Public Eye.
O apetite do mercado brasileiro para esses produtos fica
atrás apenas dos Estados Unidos, que foi o campeão de compras. Mesmo com a
relevância do mercado americano, o grosso das exportações é para “países mais
pobres, onde acredita-se que esses agroquímicos danosos trazem maiores riscos”,
afirma o relatório. Entre os maiores compradores estão Ucrânia, México e África
do Sul.
“O que causa má formação genética na Europa também causa na
Malásia. O que mata abelhas na Europa mata abelhas no Brasil ou na África do
Sul. Mas as condições para aplicar a lei e controlar o uso são mais fracas nos
países mais pobres”, diz Gaberell.
Ele lembra que o Brasil, a África do Sul e a Índia autorizam
a pulverização aérea, algo que é proibido na União Europeia, ocorrendo apenas
em situações específicas. Quando são aviões que despejam o químico, uma grande
parte fica à deriva e pode alcançar rios e comunidades rurais no entorno da
plantação.
Exportando os riscos
Os novos dados mostram que dentre os principais compradores
de agrotóxicos proibidos na União Europeia estão os principais vendedores de
alimentos para o bloco econômico: Estados Unidos, Brasil e Ucrânia. Ou seja,
empresas europeias lucram vendendo agrotóxicos perigosos para que o seu
alimento seja cultivado em outros continentes.
Isso ocorre porque o uso dos químicos em questão foram
banidos por oferecerem risco aos trabalhadores rurais e ao meio ambiente. Mas,
quando se trata de resíduos nos alimentos, o bloco fixa limites que são
tolerados na comida importada.
Não são poucos os casos de alimentos brasileiros com
agrotóxicos proibidos na Europa que chegam a mercados europeus. A ONG Pesticide
Action Network analisou testes feitos em 770 frutas, legumes e grãos vendidos
pelo Brasil à Europa em 2018. Desses, 97 tinham agrotóxicos proibidos ou de uso
restrito na União Europeia.
De um total de 31 amostras de maçãs que vieram do Brasil e
foram testadas, 24 tinham resíduos de agrotóxicos proibidos ou de uso restrito
na Europa. Quantidades significativas também foram encontradas em outras
frutas, como o mamão, a manga e o limão (veja a arte).
A análise da PAN ressalta que foram poucos os alimentos
testados do Brasil, por isso, os resultados não representam todos os alimentos
importados do país. “Mas os dados não deixam dúvidas de que a União Europeia
está comprando produtos proibidos para uso em seu território. Isso é
hipocrisia”, afirma a toxicologista Angeliki Lyssimachou, uma das pesquisadoras
que está trabalhando com os dados na PAN.
Este levantamento faz parte de um grande compilado realizado
pela PAN, cuja equipe se debruçou sobre os testes toxicológicos realizados
pelos países da União Europeia com amostras de alimentos coletados em
mercados.
Carbendazim: a nova polêmica no Brasil
O agrotóxico proibido na União Europeia que mais apareceu
nos alimentos brasileiros disponíveis nos mercados europeus foi o carbendazim.
Ele estava em 64 dos 770 alimentos testados. Principalmente nas frutas: estava
presente em 24 de 30 amostras de maçã, 19 de 112 amostras de mamão e 13 de 103
das de manga.
O carbendazim foi banido na Europa porque pode causar
defeitos genéticos, prejudicar a fertilidade e o feto, além de ser muito tóxico
para a vida aquática.
Ele é utilizado no cultivo de laranja, limão, maçã, feijão,
soja e trigo. Segundo o Ibama, 4,8 mil toneladas do produto foram compradas em
2018. Não há dados sobre a exportação deste produto da Europa para o Brasil em
2018 ou 2019, apenas da Europa para outros países.
O carbendazim é utilizado no cultivo de laranja, limão e
maçã. De acordo com o Ibama, 4,8 toneladas do pesticida foi comprado em 2018
O carbendazim promete ser a nova polêmica da vez no Brasil
porque entrou em reavaliação, o que significa que pode ser proibido ou ter sua
autorização renovada. A reportagem falou com advogados que trabalham na
constituição do que será a “Força-Tarefa Carbendazin”, grupo formado
pelas empresas fabricantes para defender a permanência do agrotóxico no mercado
brasileiro.
No Brasil, 25 empresas detêm o registro de 102 produtos
contendo este agrotóxico, dentre elas a Adama (empresa do mesmo grupo da
Syngenta), a Bayer e a Nortox, maior fabricante brasileira de
agrotóxicos.
Procurada pela reportagem, a Bayer afirmou que vai parar de
vender carbendazim em todo o mundo até o final do ano (nota completa da Bayer).
A Nortox não respondeu até o fechamento desta matéria.
Campeão de exportação na Europa e de mortes no Brasil
O produto proibido na Europa que mais teve autorizações para
exportação para todo o mundo é um dos agrotóxicos com maior impacto no Brasil:
o paraquate. Foram 32 mil toneladas, ou 40% do total das exportações da União
Europeia de agrotóxicos proibidos em 2018. Também foi, de longe, o mais
exportado para o Brasil: 9 mil toneladas autorizadas em 2018.
De acordo com o Ibama, foram vendidos no Brasil 13 mil
toneladas em 2018. Ou seja, a produção da Syngenta que saiu da Inglaterra e
veio para o Brasil correspondeu a 68% das compras deste químico no país.
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Exclusivo: Agrotóxicos paraquate e glifosato mataram 214
brasileiros na última década
Procurada pela reportagem, a assessoria de comunicação da
empresa afirmou que não responderia às perguntas enviadas.
O paraquate foi proibido em 2007 na União Europeia, depois
que pesquisas indicaram que a exposição ao agrotóxico está associada à doençade Parkinson. Embora proíba seu uso, a União Europeia permite a importação de
arroz com até 0,5 miligramas de paraquate por quilo. Nos outros alimentos, o
limite fixado é o mínimo que a tecnologia consegue detectar.
Devido aos riscos à saúde humana, o paraquate tem a mais
alta classificação toxicológica no Brasil e está prestes a ser banido, com data
final para proibição marcada para o próximo dia 22. Mas, depois de intenso
lobby das fabricantes e dos produtores de soja, o órgão regulador passou a
rediscutir a proibição, abrindo a possibilidade de que novos estudos sejam
apresentados.
Em julho, a Repórter Brasil e a Agência Pública revelaram o
lobby da chamada “Força-Tarefa Paraquate” para impedir o banimento. O principal
argumento são duas pesquisas que, em tese, poderiam provar que a substância é
segura, mas que não ficarão prontas antes da data para a proibição.
Após a reportagem revelar os conflitos de interesses
envolvendo um dos estudos que estava sendo feito em laboratório da Unicamp, o
Comitê de Ética da universidade suspendeu a autorização da pesquisa. Este
estudo foi financiado pela Associação Brasileira de Produtores de Soja
(Aprosoja) e, embora suspenso pela Unicamp, continua sendo citado pela
associação em defesa do produto em reuniões da Anvisa.
A revisão do paraquate chegou a ser proibida pela Justiça,
mas a Anvisa ganhou recurso e voltou a incluí-la na pauta da diretoria
colegiada. A próxima reunião que pode decidir o assunto será nesta quarta-feira
(15).
77% dos agrotóxicos comprados pelo Brasil são da Syngenta
Mais riscos
Além do paraquate, há outros cinco agrotóxicos que são
proibidos na Europa e que tiveram a fabricação na Europa para venda no Brasil
autorizada em 2018. O propargite, produzido pela Arysta (empresa de propriedade
de um conglomerado indiano que tem fábricas na Europa) foi proibido na União
Europeia em 2011 por ser considerado extremamente tóxico quando inalado, tóxico
para a vida aquática, ter potencial de causar sérios danos aos olhos, além de
haver indícios de que causa câncer. Em 2018, foram autorizadas vendas de 600
toneladas do produto para o Brasil. Em 2019, 608 toneladas.
A cianamida, produzido pela alemã Alzchem, é um regulador de
crescimento vegetal que foi proibido em 2008. Em contato com a pele, causa
queimaduras severas, danos aos olhos, e há indícios de que causa câncer. Além
de prejudicar a fertilidade e o feto, provoca danos aos órgãos internos com a
exposição prolongada, e também é danoso à vida aquática. Em 2018, foram
autorizadas vendas de 460 toneladas do produto.
“Ele foi proibido na União Europeia porque as autoridades
concluíram que é impossível proteger-se durante sua aplicação, mesmo usando
luvas, máscaras e outros equipamentos”, afirma o toxicologista Peter Clausing,
membro da seção alemã da PAN (Rede de Ação Contra Pesticidas).
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estar se reunindo para apoiar Julian Assange"
Há ainda três químicos produzidos pela Bayer e vendidos ao Brasil: o etoxissulfurom, a ciflutrina, e o tiodicarbe.
Questionada sobre a prática das empresas continuarem vendendo produtos proibidos na Europa devido aos riscos à saúde, a CropLife (associação que representa a maiores fabricantes de agrotóxicos do mundo como Bayer e Syngenta), respondeu que respeita as particularidades de cada país. “Cada país tem suas particularidades de solo, clima e pragas, além de seus mecanismos de aprovação, regulamentação e fiscalização de uso de defensivos químicos. Os membros da CropLife Brasil obedecem contextos locais, que são diferentes de uma região para outra, e nem por isso menos rigorosos” (resposta na íntegra).
“É importante ressaltar que os produtos autorizados em outros países não são automaticamente autorizados no Brasil”, afirmou em nota o Sindiveg (Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal), que representa também as fabricantes brasileiras como a Nortox e Ourofino Agrociência. O grupo argumenta ainda sobre as diferenças de clima entre os continentes. “O ataque de pragas no Brasil é mais severo por conta das condições climáticas de um país tropical, com temperaturas mais altas e ambiente mais úmido”, diz a nota (leia na íntegra).
As diferenças entre os ambientes também foi ressaltada pelo pesquisador Christopher Portier, ex-diretor do Centro Nacional para Saúde Ambiental e da Agência para Registro de Substâncias Tóxicas e Doenças dos Estados Unidos “Existem diferentes pragas em diferentes partes do mundo. Se um país tem uma praga de gafanhotos que ameaça sua segurança alimentar, pode considerar necessário comprar agrotóxicos que outros países proibiram porque não têm esse tipo de problema”, afirma.
Ele diz, porém, que esse tipo de situação só se aplica em casos excepcionais e que esse argumento “é excessivamente evocado pelas empresas produtoras de agrotóxicos. Um produto como o paraquate provavelmente deveria ser controlado”.
Estudos mostram que o agrotóxico paraquate estaria associado
à doença de Parkinson
Pressão sobre a Comissão Europeia
Com o lançamento do relatório com os novos dados, a Public
Eye pretende mobilizar a opinião pública contra a prática. Em resposta à
organização, a Comissão Europeia afirma que a Convenção de Roterdã (da qual
Brasil é signatário) traz regras contra a exportação de agrotóxicos proibidos.
“A Convenção é construída sob o princípio de que cabe aos países importadores
decidirem se querem ou não importar agrotóxicos listados”.
Outro exemplo é a Convenção Bamako, ratificada por 25 países
africanos. Com o objetivo de impedir a transferência de lixo tóxico, a
convenção barra substâncias proibidas nos países de origem, como os
agrotóxicos.
“É a regra de não importar nada que o país exportador não
venderia a si mesmo”, afirma Portier. “Os países estão controlando o que querem
e protegendo sua própria população”.
No horizonte do Brasil, porém, não há iniciativas neste
sentido. Sob o governo Bolsonaro, a Anvisa liberou mais produtos agrotóxicos do
que qualquer outro governo. Neste momento, o órgão debate até rever a proibição
do paraquate, o produto mais importado da Europa dentro da prática denunciada
pelas organizações.
Fonte: André Cabette Fábio, Hélen Freitas, Ana Aranha, AgênciaPública/Repórter Brasil
239 novos agrotóxicos nos primeiros 6 meses de governo
Bolsonaro
No estúdio, a conversa é sobre os novos agrotóxicos
liberados pelo governo. Assunto em debate por Yamila Goldfarb, professora da
UFABC, Marcio Automare, economista, e Carlos Eduardo Fagiolo, meteorologista.