A coordenadora nacional da Auditoria Cidadã da Dívida (ACD)
em entrevista ao programa Brasil Agora, na TV 247. Maria Lucia Fatorelli faz uma análise sobre o
avanço da PEC 65, que entrega o Banco Central do Brasil (BC) ao mercado
financeiro
Auditoria Cidadã da Dívida
Em entrevista à TV 247, Maria Lucia Fattorelli alerta para um dos pontos mais graves da PEC 65/2023. A alteração do ‘artigo 164’ da Constituição Federal (CF), na inserção do ‘parágrafo 2º’, que retira a vinculação do Banco Central à Administração Pública, eliminando qualquer subordinação hierárquica a órgãos ou sistemas do Estado.
Para a coordenadora nacional da Auditoria Cidadã da Dívida (ACD), isso gera sérios problemas de constitucionalidade, pois a CF atribui à União a responsabilidade pela gestão das reservas internacionais brasileiras e da moeda nacional. Então, fica a questão: “Como uma entidade sem vínculo com o poder público poderia exercer essas funções estratégicas”?
Fatorelli destaca, ainda, que a PEC promove, na prática, a transformação do Banco Central em uma empresa pública. Diante das críticas, a proposta passou a utilizar a expressão “entidade pública de natureza especial” – uma espécie de disfarce – mas a coordenadora da ACD esclarece que essa ‘mudança de nomenclatura’ não altera sua essência, pois o Banco Central já possui natureza autárquica.
“Isso não existe em nenhum lugar do mundo”, afirma.
Aqui, você confere este trecho da entrevista
Na TV 247: Fatorelli fala sobre avanço da PEC que entrega BC
ao mercado financeiro
O Sindicato Nacional dos Funcionários do Banco Central
(SINAL-DF) publicou em suas redes um vídeo animado remetendo à fábula dos Três
Porquinhos, demonstrando os riscos por trás da PEC 65/2023.
O Sindicato Nacional dos Funcionários do Banco Central (SINAL-DF) publicou em suas redes um vídeo animado remetendo à fábula dos Três Porquinhos, demonstrando os riscos por trás da PEC 65/2023. pic.twitter.com/1J3Sl0hluc
— Auditoria Cidadã da Dívida (@AuditoriaCidada) June 10, 2026
Digimais, instituição do líder da Igreja Universal, corre risco de quebrar
ICL Notícias
A Cedae,
estatal de saneamento básico do Rio de Janeiro, fez aportes de dezenas de
milhões de reais no Banco Digimais, que pertence ao bispo Edir Macedo, líder da
Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd). As operações foram realizadas por
diretor indicado pelo ex-governador Cláudio Castro (PL).
Desde junho de 2025, Antonio Carlos dos Santos, indicado por
Castro para a Diretoria Financeira e de Relações com Investidores (DFI) da
Cedae, fez diversos investimentos em CDBs do Banco Digimais. As aplicações
foram renovadas mesmo diante de fortes indícios de que a instituição financeira
corre risco de quebrar. Só recentemente, os recursos passaram para aplicações
com cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC).
Em nota, a Cedae afirma que “uma das primeiras medidas da
atual administração foi mudar a Política de Aplicações Financeiras” com o
objetivo de “reforçar mecanismos de governança, controle e mitigar riscos na
gestão das aplicações financeiras”. A estatal diz ainda que os
investimentos no banco Digimais não serão renovados e os valores serão
reaplicados nas “maiores e mais sólidas instituições financeiras do país”.
Já Antonio Carlos dos Santos sustenta que “que todas as
alocações de sua carteira estavam em conformidade com a política de aplicações
financeiras da Cedae, conforme apuração da auditoria interna”. O ex-diretor diz
ainda que “as decisões de investimento seguiram as normas de governança e a
política de aplicações financeiras, tendo sido aprovadas pelas instâncias
competentes, incluindo o Conselho de Administração, o Comitê de Auditoria e a
Diretoria Executiva”. Ele também nega que não houve “quaisquer interferências
externas ou políticas” nas decisões de investimento que tomou.
Aportes chegaram a R$ 91,2 milhões
A aplicação no Digimais se aproveitou das brechas criadas
sob medida para permitir os aportes no Master. Assim como no caso do banco de
Vorcaro, as agências de classificação de risco dão um rating baixo para o
Digimais, em comparação com diversos concorrentes no mercado financeiro
brasileiro.
O banco de Edir Macedo apresentou as avaliações BBB- da
Fitch e da Moody’s –a mais baixa ainda considerada grau de investimento. Até
Santos alterar “sob medida” para o Master, segundo investigação interna, a
política de investimentos da empresa, a Cedae exigia uma avaliação mínima bem
mais alta, de A-.
Os investimentos no Digimais ocorreram inicialmente em
Certificados de Depósito Bancário (CDBs), títulos de renda fixa
tradicionalmente emitidos por instituições financeiras. A rentabilidade
prometida é de 106% do CDI.
Documento detalha condições de investimento no Digimais
(Crédito: Arte/ ICL Notícias)
A primeira remessa milionária no Digimais ocorreu em junho
de 2025, quando a Cedae já se via às voltas com um possível calote de Vorcaro.
O parecer favorável de Santos veio no dia 4 de junho de 2025.
Ao contrário de várias outras aplicações feitas pela Cedae,
o investimento no Digimais não tinha liquidez diária –a empresa só poderia
resgatar os recursos em 180 dias. Ainda assim, Santos referendou nota técnica
feita por seus assessores Hedmilton Mourão Cardoso, Magno Neves Fonseca e Mauro
Luis Marques –os mesmos que o auxiliaram a operar os aportes suspeitos no Banco
Master. A recomendação era alocar R$ 35 milhões no conglomerado do bispo
Macedo.
“A referida emissão constitui oportunidade atrativa para a
Cedae, desde que o volume alocado seja inferior a R$ 40 milhões, valor de
limite que conta com a garantia especial do Fundo Garantidor de Créditos
(FGC)”, diz o documento obtido pelo ICL Notícias.
Uma nova remessa foi feita pouco depois, em agosto do ano
passado. Santos e seus assessores repetem quase integralmente o texto usado
para justificar o primeiro investimento. Dessa vez recomendam a apliacção de
mais R$ 25 milhões. O prazo para resgate era ainda maior, de 1 ano, e o
rendimento prometido era de 109% do CDI. Os recursos deveriam ser retirados de
um fundo de investimentos operado pelo Itaú, maior banco do país.
As regras criadas por Santos e que permitiram o investimento
no Banco Master permitiam o investimento de até 10% da carteira da Cedae em
bancos com rating BBB-. Após o calote do banco de Vorcaro, o Digimais foi a
única instituição financeira com esse perfil a receber recursos da estatal.
Risco de quebra do banco
A Cedae manteve os investimentos mesmo com o
agravamento da situação do Digimais.
Edir Macedo chegou a anunciar em janeiro de 2025 a venda da
instituição para Maurício Quadrado, ex-sócio de Daniel Vorcaro no Master, por
R$ 800 milhões. Contudo, Quadrado desistiu da aquisição em abril.
A venda era uma pedra de salvação para o Digimais, cujos
dados financeiros apresentavam uma série de más notícias. Em pouco tempo,
Macedo teve que injetar mais de R$ 700 milhões no negócio.
Mesmo com a deterioração da condição do Digimais, Santos e
seus assessores seguiram recomendando o investimento no banco. Em 24 de
fevereiro de 2026, uma reunião extraordinária do Comitê de Auditoria da Cedae
foi convocada para, entre outros assuntos, tratar das preocupações com a
situação do banco de Edir Macedo.
Os membros do comitê questionaram Santos sobre o assunto,
como mostra a ata da reunião. Segundo a ata do encontro, eles enfatizaram “os
pontos negativos e de riscos de cada instituição financeira onde a Cedae possui
investimentos. Diante disso, foi solicitado ao time técnico a conclusão sobre
tais investimentos, inclusive a possibilidade de realocação para instituições
com melhor rating”, relata o documento.
Comitê de Auditoria da Cedae questionou investimento no
Digimais (Crédito: Arte/ ICL Notícias)
Naquele momento, a Cedae havia contratado uma auditoria
independente para avaliar a situação da empresa. Fernando dos Santos, sócio da
empresa de auditoria, menciona que a estatal buscou o resgate das aplicações no
Digimais, mas não deixa claro porque os valores não foram recuperados até ali.
Pouco depois, em nota técnica feita em 13 de março, Santos
dobra a aposta. A DFI define a situação do Digimais como “negativa”, com
“reversão para lucro semestral, melhora de Basileia; prejuízos acumulados e
forte dependência de depósitos a prazo”. Mesmo assim, defende a manutenção dos
investimentos: “há mitigantes de risco que levam à recomendação da manutenção
das atuais posições”.
O fator mitigante, segundo a DFI, seria uma cobertura de até
R$ 40 milhões pelo Fundo Garantidor de Crédito em caso de calote. Naquele
momento, a Cedae tinha cerca de R$ 39 milhões aplicados no Digimais.
Diretoria da Cedae recomendou manutenção de investimentos em
meio à crise do Digimais (Crédito: Arte/ ICL Notícias)
Pouco depois, no final de março, Fitch rebaixou a nota do
banco de Edir Macedo para BB-, classificação já considerada de grau
especulativo.
Em 26 de maio, a Moody’s pintou um quadro ainda mais
crítico: rebaixou o banco de Edir Macedo para CCC+ –o
que representa risco iminente de calote dos investidores. O comunicado da
agência é aterrador.
“O rebaixamento dos ratings do Digimais reflete a avaliação
da Moody’s Local Brasil sobre um aumento significativo no risco dos ativos do
banco, principalmente devido à sua crescente exposição aos fundos de
investimento alternativos ao longo de 2025. Em dezembro de 2025, a carteira de
títulos e valores mobiliários, composta majoritariamente por cotas de fundos de
investimento, totalizava R$ 4,3 bilhões, correspondendo a cerca de 42% do total
de ativos e representando 5,4 vezes o patrimônio líquido do banco. A qualidade
e a recuperabilidade desses investimentos são incertas, como evidenciado pelo
parecer de auditoria externa com ressalvas sobre R$ 3,1 bilhões, ou 73% dos
fundos reportados, devido às limitações de informações sobre a adequação desses
valores”, diz o relatório da Moody’s.
.A Política de Aplicações Financeiras da Cedae em vigor
àquela altura vetava aplicações financeiras em instituições com notas tão
baixas, mas o saque imediato não foi possível porque os contratos amarravam a
estatal até a data de vencimento dos investimentos.
“Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia
conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!”, escreveu o
senador Flávio
Bolsonaro, do PL do
Rio de Janeiro, ao dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, em
uma mensagem enviada pelo WhatsApp em 16 de
novembro de 2025
Imagem: Intercept Brasil
Um dia após a mensagem de Flávio, Vorcaro foi preso enquanto
tentava fugir do país por operar um esquema de fraude que gerou um rombo de R$
47 bilhões ao Fundo Garantidor de Crédito, o FGC. No dia seguinte, 18 de
novembro, seu banco foi liquidado pelo Banco Central.
A frase escrita pelo hoje pré-candidato à Presidência da
República é parte de uma série de registros que indicam a existência de uma
negociação em que Vorcaro se comprometeu a repassar um total de 24 milhões de
dólares (na época equivalentes a cerca de R$ 134 milhões) para financiar a
produção de “Dark
Horse”, o filme biográfico sobre Jair Bolsonaro.
Documentos e mensagens obtidos com exclusividade pelo Intercept
Brasil indicam que pelo menos 10,6 milhões de dólares — cerca de R$ 61
milhões, considerando a cotação do dólar nos períodos das transferências —
haviam sido pagos entre fevereiro e maio de 2025, em seis operações, para
financiar o projeto cinematográfico ligado à família Bolsonaro.
Os registros incluem um cronograma de desembolso, um
comprovante bancário e cobranças relacionadas às parcelas previstas para a
produção. Não há evidências nas mensagens de que Vorcaro tenha feito os outros
oito pagamentos previstos para o projeto.
O envolvimento de Vorcaro foi negociado diretamente por
Flávio Bolsonaro, mas teve outros intermediários, como o irmão e deputado
federal cassado Eduardo Bolsonaro,
do PL de São Paulo, e o deputado federal Mario Frias, também do
PL paulista, que foi secretário da Cultura no governo Bolsonaro.
As conversas privadas e os documentos de Vorcaro revelam os
profundos laços financeiros e a estreita relação entre o clã Bolsonaro e o
banqueiro que se tornou o homem mais radioativo de Brasília. Flávio já havia
negado tais conexões, da sua família e da extrema direita, chegando a dizer que
isso era uma “narrativa falsa que o Lula tem criado”.
Quando foi noticiado,
em março deste ano, que o cunhado de Vorcaro – o pastor Fabiano
Zettel – havia feito uma doação de R$ 3 milhões para a campanha
presidencial de Jair Bolsonaro, Flávio disse
à CNN que isso aconteceu “sem nenhuma vinculação, sem nenhuma
contrapartida, sem nenhum contato pessoal, inclusive”.
“Essa conta do Banco Master está longe de chegar perto da
direita”, afirmou o
senador. Em evento da pré-campanha em João Pessoa, na Paraíba, dois dias antes,
ele classificou
o caso como um “grande esquema de roubalheira que está dando nojo a
todo o país”.
Na manhã desta quarta-feira, 13, Flávio Bolsonaro foi
questionado presencialmente pelo Intercept sobre o financiamento de Vorcaro ao
filme e respondeu: “De onde você tirou essa informação? É mentira”. Em seguida,
deu uma gargalhada e se retirou de onde concedia entrevista à imprensa, próximo
ao Supremo Tribunal Federal, o STF – antes, o senador havia se reunido com o
ministro Edson Fachin, presidente da corte.
Flávio já havia sido contatado sobre o assunto – por
telefone, WhatsApp e e-mail, mas não retornou até a publicação da reportagem. A
defesa de Daniel Vorcaro foi acionada, mas não houve resposta. Eduardo
Bolsonaro também não respondeu aos questionamentos enviados pelo Intercept. O
espaço segue aberto e, caso haja resposta, o texto será atualizado.
Em nota enviada ao Intercept após a publicação da
reportagem, a defesa do deputado federal Mario Frias confirmou os contatos
entre o parlamentar e Vorcaro, mas disse que as mensagens “refletem apenas uma
relação legítima entre idealizador do projeto e um potencial apoiador privado
da iniciativa”.
Também destacou que Frias não exerceu papel de articulador
político ou financeiro em nome de Vorcaro. Ainda negou qualquer uso do mandato
parlamentar para “promoção de lobby privado ou favorecimento empresarial”.
O advogado do deputado informou, ainda, que, na época da
troca de mensagens, Vorcaro era conhecido como um empresário do mercado
financeiro e “não havia qualquer informação pública que indicasse eventual
irregularidade financeira” atribuída ao banqueiro. “Conversas privadas
envolvendo exibição de conteúdo audiovisual ou encontros sociais entre pessoas
públicas e empresários não configuram irregularidade”, destacou a defesa do
parlamentar.
Sobre o filme, a defesa pontuou que Frias participou do
desenvolvimento criativo e institucional do projeto audiovisual e que “o
entusiasmo manifestado nas mensagens privadas decorre da dimensão artística e
cultural do projeto, considerado por sua equipe como uma produção inédita
dentro do cinema nacional independente”.
Os diálogos, um comprovante de uma ordem de pagamento de 2
milhões de dólares e uma tabela com previsão de valores a serem pagos
analisados pelo Intercept indicam que pelo menos parte do dinheiro foi
transferida pela Entre Investimentos e Participações, que atuava em parceria
com empresas de Vorcaro, para o fundo Havengate Development Fund LP, sediado no
Texas, nos Estados Unidos, e controlado por aliados de Eduardo Bolsonaro.
Os registros ainda sinalizam a participação direta nas
operações de outros dois intermediários: o empresário Thiago Miranda – fundador
e sócio do Portal Leo Dias –, e Fabiano Zettel, apontado pela Polícia Federal
como o principal operador financeiro de Vorcaro.
As mensagens obtidas pelo Intercept abrangem o período de
dezembro de 2024 a novembro de 2025 e incluem diálogos do banqueiro com
diversos interlocutores. O conteúdo do vazamento foi verificado por meio de
cruzamento de informações contidas nos diálogos com dados públicos e sigilosos.
Entre os elementos que confirmaram a autenticidade do material estão dados
bancários e telefônicos, inquéritos policiais, registros do Congresso Nacional e
de redes sociais.
De acordo com as conversas a que tivemos acesso, o
relacionamento entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro para viabilizar a
produção internacional do filme contava com um intermediário no fim de 2024 e,
no ano seguinte, evoluiu para uma interlocução direta, marcada por cobranças
para a liberação de dinheiro, tratativas operacionais e demonstrações de
proximidade pessoal.
As conversas também indicam que Daniel Vorcaro acompanhava
pessoalmente o andamento dos pagamentos e atribuía prioridade ao filme em relação
a outros compromissos financeiros.
O Intercept entrou em contato por e-mail com advogados do
ex-presidente Jair Bolsonaro, mas não obteve retorno até a publicação desta
reportagem.
‘Flavio está ciente de tudo’
A primeira aproximação registrada pelas conversas obtidas
pelo Intercept ocorreu em 8 de dezembro de 2024, quando o empresário Thiago
Miranda, então CEO do Portal Leo Dias, organizou um encontro entre Flávio
Bolsonaro e Vorcaro em Brasília.
Na mensagem para confirmar o encontro, Miranda afirmou ao
banqueiro que o senador queria tratar do “filme do presidente e do SBT $$” [uma
possível referência ao canal de televisão SBT], acrescentando que “Flavio está
ciente de tudo”.
Thiago Miranda e Leo Dias foram contatados para comentar as
trocas de mensagens. Até a publicação da reportagem, não houve resposta. O
espaço segue aberto e, caso haja retorno, o texto será atualizado.
O SBT, por sua vez, respondeu que, “nunca teve qualquer tipo
de contrato com o Banco Master” e que “o produto CredCesta, vinculado ao Grupo
Master, fez ações comerciais de fevereiro a dezembro de 2024 em programa do
SBT” e que “a relação do SBT com o Banco Master foi a mesma que com todos os
seus anunciantes, com estritamente a comercialização de espaços publicitários”.
A reunião foi marcada, segundo os registros, para 11 de
dezembro, às 17h30, na residência de Vorcaro em Brasília. Naquele dia, Flávio
Bolsonaro participou de uma reunião deliberativa na Comissão de Constituição,
Justiça e Cidadania, a CCJ. O vídeo disponível no canal do Senado no YouTube
mostra que, por volta das 17h30, ele recebe um
telefonema, se levanta e sai da sala.
As imagens mostram Flávio voltando a se sentar na sua
cadeira poucos
minutos depois das 18h, o que sugere que uma possível participação na
reunião poderia ter ocorrido de forma remota ou em outro local.
Pouco menos de uma hora após o horário previsto para o
encontro, às 18h24, as mensagens obtidas pelo Intercept mostram que Mario Frias
enviou um áudio para Vorcaro agradecendo pelo apoio ao projeto. Frias afirmou
que o filme “vai mexer com o coração de muita gente” e seria importante para o
país. Na sequência, ele e o banqueiro fizeram uma ligação telefônica entre si.
Nos meses seguintes, as mensagens indicam avanço das
negociações. No início de 2025, Miranda e Flávio pressionam Vorcaro para
destravar os contratos e iniciar os aportes.
No dia 20 de janeiro, Miranda encaminhou a Vorcaro uma
captura de tela em que um número atribuído a Flávio Bolsonaro pedia que o
jurídico do investidor fosse pressionado para concluir o processo. Horas
depois, Vorcaro respondeu a Miranda, na época CEO do Portal Leo Dias: “Vou
atras aqui”.
As conversas mostram que o cronograma de pagamentos passou a
ser acompanhado diretamente pelo banqueiro e por Fabiano Zettel, apontado nas
mensagens como responsável pela operacionalização jurídica e financeira do
aporte. Entramos em contato com o advogado de Zettel, Celso Vilardi, mas ele
não respondeu aos questionamentos feitos pela reportagem.
No dia 21 de janeiro, Zettel explicou a Vorcaro que o filme
teria um fluxo específico de pagamentos: dez parcelas de 2,5 milhões de
dólares. Meses depois, em agosto do mesmo ano, Miranda enviou a Daniel Vorcaro
um documento com uma tabela indicando que o fluxo de pagamentos acordado foi
diferente: 14 parcelas – 12 delas de 1,666 milhão de dólares e duas de 2
milhões de dólares.
Ainda em janeiro, no dia 28, Vorcaro demonstrou preocupação
com os atrasos nos repasses financeiros e afirmou que o projeto cinematográfico
era prioridade absoluta ao definir o pagamento como “o mais importante
disparado”. E deu uma ordem: “Nao pode falhar mais”.
As mensagens também revelam dificuldades operacionais para a
remessa internacional dos recursos. Em fevereiro, Zettel relatou sucessivas
recusas do setor de câmbio do Banco Master para realizar a operação e que
informações de cadastro eram “meio estranhas”. Vorcaro, então, orientou que o
pagamento fosse realizado “via entre”, uma referência à empresa Entre
Investimentos e Participações.
Embora o Grupo Entre Investimentos e Participações e Vorcaro
neguem qualquer vínculo societário, de controle ou governança entre as partes,
processos judiciais e administrativos obtidos pelo Intercept evidenciam uma
conexão operacional e financeira entre o grupo e o banqueiro. Em março de 2026,
após o Banco Central decretar a liquidação extrajudicial da Entrepay, uma
empresa que pertencia ao Grupo, autoridades passaram a investigar a suspeita de
que Vorcaro atuaria como dono
oculto da empresa.
O Intercept é único…
porque é financiado por seus leitores, e não por banqueiros bilionários,
governos ou políticos.
Mas, infelizmente, menos de 1% dos nossos leitores chega a fazer uma
contribuição.
Estamos em uma campanha para recrutar 1.000 novos apoiadores mensais neste
mês.
Precisamos de você para que possamos continuar produzindo investigações como
esta.
Segundo matérias publicadas por Metrópoles e Estadão,
investigadores avaliam que Antônio Carlos Freixo Júnior — executivo ligado ao
Grupo Entre e identificado nas mensagens do vazamento obtido pelo Intercept
como Mineiro — funcionaria como operador de interesses do banqueiro dentro da
companhia.
Apesar das negativas oficiais, as mensagens indicam haver
uma ligação entre Vorcaro e Freixo. Em fevereiro de 2025, segundo os registros,
Fabiano Zettel perguntou a Vorcaro se poderia “pedir pro Minas” logo após o
banqueiro sugerir fazer a operação “via entre”. O telefone de Freixo foi salvo
na agenda de contatos de Vorcaro como Mineiro.
O Intercept enviou mensagem por WhatsApp e telefonou para
Antônio Carlos Freixo Júnior, mas não obteve retorno até a publicação desta
reportagem.
Dias depois, em 14 de fevereiro de 2025, Zettel encaminhou
ao banqueiro o comprovante de uma transferência internacional de 2 milhões de
dólares para o Havengate Development Fund LP, identificado nas mensagens como o
fundo ligado à produção do filme. A Entre Investimentos e Participações aparece
no registro como a remetente do valor.
O Grupo Entre, controlador da Entre Investimentos e
Participações, foi contatado pela reportagem e disse em nota que “não existe
vínculo societário, de controle ou de governança da empresa com Daniel Vorcaro.
A empresa reafirma seu compromisso com a transparência, permanecendo à
disposição das autoridades para os esclarecimentos necessários”.
Documentos societários obtidos pelo Intercept mostram que o
fundo Havengate Development Fund LP foi registrado no Texas, nos Estados
Unidos, e tem como agente legal o escritório “Law Offices of Paulo Calixto
PLLC”, de Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro.
Nos registros, o fundo aparece como sendo pertencente à
companhia quase homônima Havengate Development Fund GP LLC, registrada no mesmo
endereço comercial em Dallas.
Os documentos desta segunda firma apontam o corretor de
imóveis Altieris Santana como membro do quadro societário do fundo e Paulo
Calixto como membro e administrador. Ambos aparecem vinculados ao mesmo endereço
comercial utilizado pelo Havengate.
Em março de 2025, de acordo com os registros obtidos pelo
Intercept, Vorcaro voltou a cobrar a quitação das parcelas ainda pendentes. Em
uma mensagem enviada no dia 12 daquele mês, ele encaminhou um cronograma de desembolsos
indicando que apenas a primeira parcela havia sido paga até então. O documento
previa seis parcelas somando 10,6 milhões de dólares entre janeiro e maio de
2025.
Em contato telefônico, Altieris Santana se recusou a prestar
informações à reportagem, indicando Paulo Calixto como representante legal.
Paulo Calixto, por sua vez, não respondeu aos contatos telefônicos, por e-mail
e via mensagem feitos pelo Intercept.
Crise do Master atrapalha ‘Dark Horse’
No dia 21 de março, o nome de Eduardo Bolsonaro apareceu
pela primeira vez nas conversas a que tivemos acesso. Thiago Miranda encaminhou
a Vorcaro uma captura de tela em que um número atribuído a Eduardo sugere
alternativas para facilitar o envio dos recursos aos EUA – e informa que
Altieris Santana, controlador do fundo Havengate, estaria disponível para
reuniões presenciais relacionadas à operação financeira.
No contato com a reportagem do Intercept, Altieris Santana
se recusou a comentar a relação com o filho do ex-presidente ou a intermediação
dos pagamentos. O Intercept também questionou por e-mail o ex-deputado Eduardo
Bolsonaro, mas não recebeu resposta até a publicação deste texto.
O cronograma de financiamento do filme coincidiu com a
tentativa fracassada de Vorcaro de vender o Master para o Banco
de Brasília, o BRB, e com a crescente atenção das autoridades, que
culminaria na sua prisão. Ao longo do segundo semestre de 2025, as mensagens
indicam aumento da pressão financeira sobre Vorcaro e uma intensificação do
contato direto com Flávio Bolsonaro.
Em agosto, Miranda enviou ao banqueiro a imagem de uma
tabela intitulada “Funding Schedule Havengate Dev Fund”, segundo a qual 10,6
milhões de dólares já haviam sido transferidos de um total previsto de 23,9
milhões de dólares. Vorcaro respondeu: “segunda fazemos duas”, e Miranda
afirmou estar “monitorando essa reta final”.
A reportagem do Intercept telefonou para Miranda e enviou
questionamentos a ele por WhatsApp, mas não obteve resposta até a publicação
desta reportagem.
Pouco depois, em 8 de setembro, alguns dias antes de Jair
Bolsonaro ser condenado pela trama golpista, Flávio Bolsonaro enviou um áudio
diretamente a Vorcaro cobrando o saldo pendente e alertando para o risco de
paralisação da produção do filme.
Na gravação, o senador diz que havia preocupação com o
atraso nos pagamentos a profissionais internacionais envolvidos na produção.
“Imagina a gente dando calote num Jim Caviezel [ator que interpreta Jair
Bolsonaro no filme], num Cyrus [Nowrasteh, diretor do filme], os caras, pô, renomadíssimos
lá no cinema americano e mundial. Pô, ia ser muito ruim”, afirmou Flávio.
Flávio também disse que o não cumprimento dos compromissos
financeiros poderia comprometer contratos, elenco, direção e toda a equipe do
longa. “Agora que é a reta final que a gente não pode vacilar, não pode não
honrar com os compromissos aqui, porque senão a gente perde tudo”, declarou.
Na resposta, Vorcaro pediu desculpas, afirmou que a semana
anterior havia sido muito difícil para ele e prometeu resolver a situação até o
dia seguinte. Na mesma noite, os dois fizeram uma ligação telefônica de cerca
de dois minutos e meio, de acordo com os registros obtidos pelo Intercept.
Cinco dias antes dessas mensagens entre Flávio e Vorcaro, o
BRB anunciou que o Banco Central havia reprovado
a venda do Master.
‘Tudo isso só está sendo possível por causa de vc’
As conversas seguintes mostram a manutenção do contato
frequente entre ambos. Ainda em setembro, Flávio e Vorcaro realizaram quatro
ligações e marcaram encontros presenciais em São Paulo.
Em uma troca de mensagens no dia 17, Vorcaro perguntou
“14:30?”, ao que Flávio respondeu: “Blz”. Em outubro, as cobranças se
intensificaram novamente. No dia 22, Flávio informou que as filmagens já
estavam no terceiro dia e que a produção havia chegado “no limite”. O senador
afirmou que, caso o apoio financeiro não pudesse continuar, seria necessário
avisar para que a equipe buscasse “outro caminho”. O banqueiro o tranquilizou:
“Deixa comigo”.
No mesmo dia, Flávio convidou Vorcaro para um jantar em São
Paulo com o ator Jim Caviezel e o diretor Cyrus Nowrasteh em 2 de novembro. O
banqueiro sugeriu realizar o encontro em sua própria residência e que poderia
reorganizar sua agenda para comparecer, pois “tinha uma viagem”. Flávio
sugeriu, mais tarde, a data de 6 de novembro. Não há confirmação, nos
registros, se o jantar de fato ocorreu.
Enviamos questionamentos para Nowrasteh e Caviezel, mas não
houve resposta até o momento de publicação.
No dia 7 de novembro, após enviar a Vorcaro um vídeo de
visualização única, Flávio escreveu: “Tá perdendo, irmão! Tudo isso só está
sendo possível por causa de vc”. Vorcaro responde: “Que demais”. Em seguida,
diz: “Ficou perfeito”.
Em dezembro de 2025, o Intercept
revelou que Karina Ferreira da Gama, produtora do filme no Brasil,
havia recebido pelo menos R$ 108 milhões da Prefeitura de São Paulo para operar
um contrato de Wi-Fi público sem concluir entregas previstas. Desde março, o
Ministério Público está investigando o contrato. A origem do dinheiro que
custeou a super produção permanecia, no entanto, uma incógnita. Enviamos questionamentos
para Gama, mas não houve resposta até a publicação. O espaço segue aberto.
O protagonista Jim Caviezel chegou a anunciar a estreia do
filme “Dark Horse” para 11 de setembro de 2026, poucas semanas antes da eleição
presidencial que Flávio Bolsonaro espera vencer. O site oficial do filme, no
entanto, não confirma que a produção tem data para chegar ao Brasil.
🚨 EXCLUSIVO: o Intercept Brasil obteve mensagens, documentos e áudios que revelam como Flávio Bolsonaro negociou diretamente com o banqueiro Daniel Vorcaro um pagamento milionário para financiar “Dark Horse”, filme sobre Jair Bolsonaro.
Contribuíram nesta reportagem: Ana Clara Barbosa,
Angélica Neiva, André Garavatti, Bianca Pyl, Eduardo Lima, Rafaela Silva,
Samantha Prado, Sarah Germano e Thalys Alcântara
Atualização: 13 de maio de 2026, 16h29 O texto foi atualizado para incluir as respostas da defesa do deputado
federal Mario Frias, do PL de SP, aos questionamentos do Intercept.
Atualização: 14 de maio de 2026, 09h38 O texto foi atualizado para incluir as respostas da assessoria de
imprensa do Grupo Entre aos questionamentos do Intercept.
Quanto mais o governo corta na carne do povo para pagar a
chamada dívida pública, mais o Banco Central aumenta a Selic. Esse movimento
eleva a própria dívida, drenando recursos públicos em um ciclo sem fim.
O mercado faz o que quer, chantageia o governo que, em vez
de auditar a dívida pública, segue na mesma trilha de cortes sociais aberta
pelos governos anteriores. O arcabouço fiscal e os novos programas de cortes
são prova disso.
A cada 1% de aumento na Selic, o gasto com a dívida pública
cresce R$ 55 bilhões (Fonte: Banco Central – Dezembro/2024).
O mais grave é que em sua última ata o Banco Central
anunciou que pode aumentar os juros em 2 pontos percentuais em janeiro e
março/2025, o que triplicaria o rombo, adicionando mais R$ 110 bilhões à dívida
pública além dos R$ 55 bilhões, considerando apenas esses poucos meses de
dezembro a março! Isso anula qualquer “economia” prometida com cortes sociais,
como questiona Maria Lucia Fattorelli:
“O que adianta aprovar um pacote de cortes que economiza
cerca R$ 30 bilhões em 2025, se a cada 1% de aumento na Selic o gasto com a
dívida pública sobe R$ 55 bilhões?”
Exigimos a auditoria da dívida pública para interromper essa
sangria e reverter o escândalo que penaliza a sociedade brasileira.
Subir juros não controla o tipo de inflação existente no
Brasil
O escândalo da política econômica brasileira. Quanto mais o governo corta na carne do povo para pagar a chamada dívida pública, mais o Banco Central aumenta a Selic. Esse movimento eleva a própria dívida, drenando recursos públicos em um ciclo sem fim.https://t.co/LFyEvCxSwJpic.twitter.com/187zFEaOyZ
— Auditoria Cidadã da Dívida (@AuditoriaCidada) January 13, 2025
A AUDITORIA CIDADÃ DA DÍVIDA é uma associação sem fins
lucrativos que estuda e divulga fatos sobre o endividamento público e seus
desdobramentos
Auditoria Cidadã da Dívida
Os jornais noticiaram que o Presidente Lula indicou, para
ser o próximo Presidente do Banco Central, o economista Gabriel Galípolo, que,
conforme temos divulgado em posts anteriores, tem votado junto com o atual
Presidente Roberto Campos Neto na manutenção da altíssima Taxa Selic, usada
como base para os ganhos dos rentistas da dívida pública.
Tais decisões têm sido tomadas sempre sob o equivocado
argumento de controle inflacionário, mesmo que a inflação no Brasil esteja
dentro da meta, e não esteja relacionada a uma suposta demanda aquecida, mas a
preços administrados pelo próprio governo e outros preços que também não caem
com a alta de juros.
Se, por um lado, apoiadores do governo poderiam argumentar
que o Senado reprovaria um nome comprometido com uma forte queda nos juros, por
outro lado, tal argumento mostra a importância de se alterar a estratégia do
governo, já que desta forma nunca se conseguirá alterar de fato a política de
juros do Banco Central, tão criticada pelo Presidente Lula.
Já passou da hora de o governo decretar a auditoria da
dívida pública, que tem relação direta com as insanas taxas de juros praticadas
no Brasil.
Para surtir os efeitos necessários, a auditoria deve ser
integral, com participação social (como no Equador e Grécia), e deve denunciar
os mecanismos que geram dívida sem contrapartida; mostrar quem se beneficia
desse Sistema da Dívida que atua no Brasil, além de demonstrar para toda a
população que essa dívida não tem servido para investimentos sociais, mas para
pagar os próprios juros e mantê-los elevados, amarrando toda a economia do
país.
No Brasil vivemos uma discrepância econômica e social que
não condiz com a nossa realidade de riqueza em recursos naturais, humanos e em
termos de investimentos
Auditoria Cidadã da Dívida
Somos um país rico com uma população extremamente pobre. A nona economia do mundo1, mas com um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) lastimável. Ainda que tenha havido uma redução da desigualdade segundo o IBGE nos últimos 11 anos, continuamos no topo da concentração de renda no mundo. Comparando com dados mais recentes relativos ao índice de Gini, que aponta a diferença entre os rendimentos dos mais pobres e dos mais ricos, em comparação a outros países, o Brasil aparece como o décimo pior em desigualdade, apenas países africanos, como a África do Sul, se saem pior, encabeçando a lista. 2
Aliado a uma dívida pública nunca auditada e com indícios de inúmeras irregularidades como mostrou a CPI da Dívida (2009-2010)3,4, somos oprimidos pelos juros mais estratosféricos do planeta. E aí vem a pergunta: Cadê a Lei da Usura (Decreto-Lei 22.626/33)? Onde fica o artigo 406 do Código Civil que diz: Quando os juros moratórios não forem convencionados, ou o forem sem taxa estipulada, ou quando provierem de determinação da lei, serão fixados segundo a taxa que estiver em vigor para a mora do pagamento de impostos devidos à Fazenda Nacional. (Vide ADIN 5867) (Vide ADC 58) (Vide ADC 59) (Vide ADPF 131).5
“De acordo com o Novo Código Civil na ausência de estipulação entre as partes, foi estabelecida uma taxa de juros legais moratórios, equivalente à taxa de juros decorrente da mora no pagamento de impostos à Fazenda Nacional (art. 406). Em qualquer caso, a mora no pagamento de impostos devidos à Fazenda Nacional é definida pelo art. 161, § 1.°, do Código Tributário Nacional “Se a lei não dispuser de modo diverso, os juros de mora são calculados à taxa de 1% (um por cento) ao mês” e art. 5.° do Decreto 22. 626/33, o que se afirma na exata medida em que a taxa Selic, instituída por leis ordinárias (Leis 9.065/95 e 9.779/99), não pode ser aplicada em detrimento do art. 161, § 1. °, do CTN, em razão do princípio da hierarquia, vez que o Código Tributário Nacional foi recepcionado pela Constituição Federal de 1988 como lei materialmente complementar (art. 34 do ADCT)”.6
Tentando se “ajustar” ao cenário caótico brasileiro, sem deixar de fazer as vezes
do mercado financeiro, reduziu-se os juros do cartão de crédito de taxas que
chegavam a 1000%7, aos agora 100%8, ainda absurdos,
tendo-se como parâmetros inúmeros países com taxas bem mais condizentes com a
civilidade. Grande parte dos países, incorpora o limite de juros à
legislação – em 28 deles existem as chamadas “leis de usura” e em 24 há leis
específicas de taxas de juros.9“Os juros do rotativo eram
maiores do que os que qualquer consumidor de baixa renda pagaria a um agiota do
bairro onde mora, por exemplo. Sei que a frase é forte, mas é uma verdade
absoluta. Não tinha nenhum modelo de empréstimo que cobrava mais juros do
consumidor e acredito que o crédito rotativo é o verdadeiro responsável pela
inadimplência”, ressalta o fundador do Data Favela, Renato Meirelles.
Toda essa farra do sistema bancário se torna ainda mais
nauseante quando nos damos conta que o Banco Central realiza operações chamadas
“compromissadas” e “depósitos voluntários remunerados” com essas instituições,
esterilizando, ou seja, deixando parados cerca de 1,4 trilhão de reais, que
poderiam estar sendo investidos no país, mas que têm servido apenas para
remunerar a sobra de caixa.11 Essas operações chegam a consumir
quase 25% do PIB do país12com a falácia de enxugar a liquidez em um
país onde não há circulação excessiva de moeda na economia, pelo contrário, o
que existe é uma imensa escassez e também com o pretexto, já desmascarado, de
controlar a inflação que advém de preços definidos pelo próprio governo
(combustíveis, plano de saúde, escola, luz, água, aluguel, entre outros) e não
de uma suposta demanda aquecida.
Não podemos viver subjugados a um sistema que só tem
retirado recursos do país e dos indivíduos de formas que parecem não estar
relacionadas para a maioria das pessoas mas sim, estão. Uma apenas diz respeito
à macroeconomia (ex.: operações compromissadas, depósito voluntário
remunerado, swap cambial) e outra à microeconomia (ex.: os
altos juros que você paga e a carestia de tudo como resultado desse sistema de
expropriação).
O artigo 192 da Constituição diz: O sistema financeiro
nacional, estruturado de forma a promover o desenvolvimento equilibrado do País
e a servir aos interesses da coletividade, em todas as partes que o compõem,
abrangendo as cooperativas de crédito, será regulado por leis complementares
que disporão, inclusive, sobre a participação do capital estrangeiro nas
instituições que o integram. (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 40, de
2003) (Vide Lei nº 8.392, de 1991).13 E, ainda que o parágrafo
terceiro tenha sido retirado do artigo 192, não há matemática ou economês que
comprove que não existe limite, para além do interesse da banca
financeiraque dita as regras da política econômica do país.
Se em 1988, taxas acima disso já eram consideradas usura,
imagine agora num país de população de maioria assalariada, alguns com desconto
de imposto de renda de 27,5% na fonte, enquanto uma minoria é isenta (conforme
Tabela 1)14, pois a regressividade do sistema tributário brasileiro
tem beneficiado rendimentos isentos e não tributáveis como lucros e dividendos.
Citando um exemplo prático, quem declarou mais de 320 salários-mínimos mensais
em rendimentos totais, aproximadamente 68% correspondem aos rendimentos isentos
e não tributáveis e apenas 6,68% correspondem aos rendimentos tributáveis
brutos. 15
Tabela 1- Nova tabela de dedução do IR
Fonte: Valor Econômico Brasil
É inadmissível conceber juros abusivos
como os adotados no Brasil com a grande maioria da população ganhando de 1
salário (agora, R$ 1.421,00) a 2 salários e ainda segurando todo o peso da
tributação que incide, principalmente, sobre o consumo.16
As taxas de juros impostas à população brasileira são
simplesmente aviltantes e não têm parâmetros, teóricos,
técnicos e econômicos, no planeta.
Para concluir, coloco um parágrafo do livro em pdf do
Professor Ladislau Dowbor, “Juros extorsivos no Brasil: como o brasileiro
perdeu seu poder de compra”, página 94: “Os juros elevados alimentam os
intermediários financeiros, segundo os vários mecanismos que vimos acima.
Manter os juros elevados em nome da proteção do povo contra a inflação gera ao
mesmo tempo o elevado fluxo de recursos para os intermediários financeiros,
e uma segunda fonte de recursos que é a própria inflação, já que os
bancos ganham no “float”(denomina o prazo existente entre o dia do depósito de
um pagamento ou cheque e a recepção deste valor no banco ou entidade
financeira) de recursos não aplicados pelos clientes. A inflação em si
constitui um poderoso instrumento de transferência de recursos dos que têm renda
fixa, como os assalariados, aposentados ou até pequenos empresários que não têm
como influenciar os preços, para os grandes grupos financeiros que fazem
aplicações financeiras e escapam da erosão da capacidade de compra. O rentista
tem o dinheiro aplicado e que rende muito, enquanto o assalariado espera a
renegociação do salário a cada ano, e o que ele perde é indiretamente
apropriado pelo sistema financeiro.”17Vale acrescentar que,
além de “indiretamente apropriado”, poderíamos dizer imoralmente e injustamente
e, o que tem sido feito, ainda é pouco diante da imenso deslocamento de renda
de um grande estrato da população para um pequena parte que ganha apenas
especulando.
Referências
1- “Brasil salta duas posições e se torna a nona economia do
mundo em 2023”. 2023. Agência Brasil. https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2023-12/brasil-salta-duas-posicoes-e-se-torna-nona-economia-do-mundo-em-2023 (3 de janeiro de 2024).
2– Mali, Tiago. 2023. “Desigualdade do Brasil
está a décadas de distância da Europa”. Poder360.
https://www.poder360.com.br/economia/desigualdade-do-brasil-esta-a-decadas-de-distancia-da-europa/
(3 de janeiro de 2024).
5- “Art. 406 do Código Civil”. Jusbrasil.
https://www.jusbrasil.com.br/busca?q=art.+406+do+c%C3%B3digo+civil (3 de
janeiro de 2024).
6- “Limites legais da cobrança de juros – Gilberto Melo”.
https://www.gilbertomelo.com.br/limites-legais-da-cobranca-de-juros/
7- “Por que juros do cartão chegam a 1.000% mesmo com a
Selic em 13,75%?” 2023. Estadão E-Investidor – As principais notícias do
mercado financeiro.
https://einvestidor.estadao.com.br/educacao-financeira/juros-cartao-de-credito-com-selic-a-13-75/
(3 de janeiro de 2024).
8- Dhiego. 2024. “Juros do rotativo passam a ser limitados a
100% da dívida a partir de hoje; veja simulação”. InfoMoney.
https://www.infomoney.com.br/minhas-financas/juros-do-rotativo-passam-a-ser-limitados-a-100-da-divida-veja-simulacao/
(3 de janeiro de 2024).
10- “Teto do rotativo reduz endividamento, mas juros
continuam altos”.
https://www.folhape.com.br/economia/teto-do-rotativo-reduz-endividamento-mas-juros-continuam-altos/309482/
(3 de janeiro de 2024).
15- Palermo, Luiza. “Milionários pagam menos IR que classe
média, enquanto também ficam mais ricos”. CNN Brasil.
https://www.cnnbrasil.com.br/economia/milionarios-pagam-menos-imposto-de-renda-que-classe-media-enquanto-tambem-declaram-mais-lucros-e-dividendos/
17- “Juros Extorsivos No Brasil: Como O Brasileiro Perdeu O
Poder De Compra | Dowbor.org”. 2016. https://dowbor.org/2016/06/l-dowbor-juros-extorsivos-no-brasilcomo-o-brasileiro-perdeu-o-poder-de-compra-etica-sao-paulo-2016-108p.html
Plataformas como sistemas de mensagens não-SWIFT e
estabelecimento de relações bilaterais de corretagem utilizando moedas
nacionais estão agora a ser utilizadas por bancos e empresas no Irã e na
Rússia, informou a Fars News na quarta-feira, citando informações do Banco
Central do Irã.
Teerã, IRNA - O estabelecimento de novas plataformas
financeiras e bancárias abriu um “novo capítulo” nas relações bancárias entre o
Irã e a Rússia, com os dois países a concordarem em abandonar o dólar
americano e, em vez disso, negociar em moedas locais.
Numa reunião recente, o Governador do Banco Central do Irão,
Mohammad-Reza Farzin, e o seu homólogo russo finalizaram um acordo para
utilizar moedas nacionais no comércio bilateral.
Farzin também propôs aproveitar as capacidades dos BRICS
para facilitar as transações durante a presidência da Rússia sobre o grupo de
economias emergentes. A proposta foi bem recebida pelo principal banqueiro
da Rússia.
Segundo o relatório, as disposições técnicas do acordo serão
postas em discussão durante futuras reuniões entre os governadores dos bancos
centrais do Irã e da Rússia.
O Irã e a Rússia, ambos sob sanções ocidentais draconianas,
criticaram repetidamente os EUA e os seus aliados europeus por transformarem o
dólar em arma como uma ferramenta para exercer pressão sobre outros países.
Eles, juntamente com outros membros dos BRICS, lançaram
iniciativas para abandonar a dependência do dólar americano no comércio
bilateral.
A grande imprensa continua propagandeando que a dívida tem crescido por causa dos gastos sociais, e não por causa dos juros abusivos e demais mecanismos financeiros ilegítimos que combatemos e denunciamos diariamente.
A preocupação do mercado com o aumento da dívida e a responsabilidade fiscal do país pode até parecer nobre para alguns, mas lá no fundo, todos sabemos bem que o real motivo de todo este alarde em torno do tema da dívida está no medo de que se alterem os privilégios que marcam a maneira ERRADA como a política econômica brasileira tem atuado, beneficiando principalmente banqueiros, rentistas e o setor financeiro de modo geral.
A grande imprensa continua propagandeando que a dívida tem crescido por causa dos gastos sociais, e não por causa dos juros abusivos e demais mecanismos financeiros ilegítimos que combatemos e denunciamos diariamente, como a remuneração da sobra de caixa, os escandalosos contratos de swap, os prejuízos do Banco Central e toda a gastança financeira obscura que só será revelada por meio da auditoria integral com participação social.
Lutar pela realização da auditoria significa garantir transparência a essa dívida que todos os brasileiros e brasileiras pagamos à custa de muito sacrifício. Isso nos motiva a seguir trabalhando diariamente. Afinal, esse dinheiro sai do nosso bolso e temos o direito de saber quanto e a quem estamos pagando, já que toda essa dívida é a principal responsável pelo sucateamento do Estado, pelas privatizações insanas, pelas contrarreformas e todos os cortes na saúde, educação e demais áreas vitais para a nossa população. AUDITORIA JÁ!
Tudo travado devido à alta abusiva de juros pelo Banco Central, sob falsa desculpa de controlar inflação (que não cai quando juros sobem pois tem outras causas: preço de combustíveis, energia e alimentos) + Aumento brutal da BolsaBanqueiro, que fica fora do teto #LimitedosJurosJápic.twitter.com/k2RnpE8YDa